Rugas – Paco Roca

Rugas

Um livro que se lê de um fôlego. 100 páginas de banda desenhada que tratam de forma ligeira e bem-disposta temas nada suavescomo o envelhecimento, a doença de Alzheimer, as relações familiares nesses contextos e a forma como cada um vive o fim da sua vida. No entanto, como seria inevitável ao abordar questões tão complexas, o tom divertido é apenas a camada mais superficial da obra. Paralelamente ao sorriso que nos provocam as situações alegremente disparatadas causadas pelas manias e esquecimentos típicos da idade avançada, entramos num mundo de sensações contraditórias e, por vezes incómodas. Na verdade, é impressionante como o autor consegue manter o tom jocoso enquanto nos alerta para factos como a humilhação sentida pelos idosos ao serem tratados como crianças, o terror que deles se apodera ao serem confrontados, na pessoa dos companheiros de lar, com o estado em que estarão daí a pouco tempo, o choque de um diagnóstico de Alzheimer com todas as suas implicações, e o desolador quotidiano da vida num lar: as horas intermináveis entre as refeições, em que nada há a fazer senão dormir sentado enquanto se espera para ir dormir deitado, a artificialidade das visitas familiares, feitas por obrigação e frequentemente um peso para ambas as partes, a diferenciação clínica entre “válidos” e “assistidos”, ou seja, aqueles que “ainda conseguem raciocinar um bocado” (pág. 15) e os que já estão completamente dementes.

Mas o Autor consegue ainda, no espaço destas 100 páginas quadriculadas, abordar com uma racionalidade tocante a questão do Alzheimer, lapidarmente definido como “o longo adeus” (pág. 22). Que reacção se espera dos familiares quando o seu ente querido deixa de os conhecer? Valerá a pena abdicarem de tudo para tratarem alguém que nem se apercebe da sua presença? Ou será que se apercebe, apesar de não conseguir exprimi-lo? Alguma atitude que tomem fará alguma diferença?

Tudo isto é encarado de modo diferente pelos pessimistas, que consideram que tanto a medicação como os cuidados extremosos são puras perdas de tempo, e pelos optimistas, que vêem com entusiasmo o facto de ainda estarem vivos, poderem ver os filhos e os netos e dedicar-se a actividades estimulantes como a ginástica, o bingo e a dança. Por fim, quase como um acto de misericórdia, para que não terminemos o livro com desencanto, o Autor presenteia-nos com um vislumbre da solidariedade que se gera entre pessoas que, embora já limitadas em vários aspectos, partilham os seus dias em estreita proximidade. Quem disse que a amizade já não se forma a partir de uma certa idade? Afinal, nem tudo está perdido.

Bertrand Editora, 2013

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