Uma Manhã Perdida – Gabriela Adamesteanu

uma manhã perdida

Vica Delca teve uma longa vida. Tão longa que as suas recordações abrangem grande parte da História romena do último século. Mas não, ela não percebe nada de política, nem nunca quis perceber, porque, se não cuidar de si, ninguém cuidará, e não quer cá sarilhos para os seus lados. A memória de Vica guarda apenas acontecimentos da sua própria vida e das vidas com que se cruzou no decurso da sua existência. Alguns presenciados por si, outros que lhe foram contados, com maior ou menor veracidade, outros ainda que resultam das suas incansáveis conjecturas.

A história de uma família aristocrata para a qual trabalhou como costureira marcou-a especialmente. Ainda hoje se desloca à mansão, agora delapidada, onde em tempos essa família vivia faustosamente, para recolher o donativo que a filha da sua antiga patroa se comprometeu a entregar-lhe todos os meses. Numa fria manhã de Inverno, Vica, esfomeada e sem dinheiro, começa por visitar a cunhada em busca de algo com que forrar o estômago, mas, não a apanhando em casa, dirige-se mais uma vez à dita mansão na esperança de receber o donativo uma semana mais cedo. Será uma manhã perdida em deslocações e esperas povoadas de reminiscências do passado, seguida de uma tarde passada numa tagarelice aparentemente inútil. Mas, através da sua voz rabugenta, são-nos fornecidas várias peças do puzzle que, construído gradualmente à medida que a história avança, nos vai revelando as histórias pessoais dos vários membros daquela família, assim como, em pano de fundo, a História da Roménia no Séc. XX, desde a Primeira Guerra Mundial ao regime comunista.

É também nessa manhã perdida que Vica vê, pela primeira vez, uma fotografia antiga da dita família. O paralelismo com a fotografia na capa do livro é evidente e, segundo a Autora, foi mesmo intencional. Na segunda parte do livro, ficamos a saber que aí se encontra retratada a hora do chá, um ritual diário, e, mais precisamente, a hora do chá do dia da morte do rei Carol. Em seguida, uma outra tarde passada à volta do mesmo salão é-nos descrita sucessivamente pelas vozes dos diversos personagens constantes da fotografia, e cada testemunho adiciona mais uma peça ao puzzle em construção, tanto no que se refere aos dramas pessoais de cada um deles como em relação ao drama colectivo que os une: o destino da Roménia.

Restam ainda algumas lacunas por preencher, que serão supridas pelo diário do patriarca da família e pela conversa havida entre Vica e a sua benfeitora, tantos anos depois. O mosaico completa-se e surge, perante os nossos olhos, um retrato pungente de um país castigado por duas Guerras Mundiais (não esquecendo a anterior Guerra dos Balcãs, também referida) logo seguidas de um regime ditatorial, e dos custos sociais e humanos que essas duras circunstâncias tiveram para toda a população. E surge ainda um outro retrato, de sátira de costumes, onde a mentalidade das diferentes classes sociais surge espelhada de forma vívida, com os seus estratagemas, interesses, preconceitos e lealdades (ou deslealdades). Particularmente rica é a caracterização das relações entre classes, representada na perfeição pela interacção entre Vica e a filha da sua antiga patroa. As reflexões de uma acerca da outra, a forma como se dirigem uma à outra e, finalmente, o contraste entre a forma como interagem no início e no fim do dia inteiro que passam juntas são uma obra-prima de análise sociológica. A excelência da tradução permite-nos apreciar esta vertente na sua plenitude, já que o tradutor conseguiu reproduzir com mestria os diversos tipos de discurso usados nas diferentes classes sociais,  estabelecendo uma indiscutível distância entre a linguagem erudita usada pelas classes altas e as expressões idiomáticas e sub-padrão características das classes mais desfavorecidas.

Existem muitos motivos pelos quais este livro pode impressionar e mesmo chocar. Os horrores da guerra, os preconceitos entre classes, as considerações inacreditavelmente sexistas tecidas acerca do papel da mulher na sociedade, as descrições quase gráficas de doenças terminais. Mas o que mais me marcou foi a sensação de despojamento com que se fica ao terminar o livro: de todas aquelas vidas vibrantes, repletas de medos, amores, ódios, ciúmes, desejos, nada sobrou passados alguns anos. Uns emigraram, outros morreram, outros arrastam-se em restos de uma existência que já nada tem a ver com o que foram um dia. E o mesmo sucede àqueles que os poderiam recordar. Tal como as casas, mesmo as mais luxuosas, um dia serão ruínas, também as pessoas estão condenadas ao desaparecimento, seja de forma súbita e violenta, seja definhando lentamente até se transformarem em pó. É certamente uma mensagem dura, mas a vida não é menos dura. E a grande beleza deste livro está, a meu ver, na sua desconcertante semelhança com a vida.

Excertos:

“- Porque é assim a maneira não solidária, muitas vezes sem cortesias, como se tratam entre si as nossas pessoas de bem! Todos os dias ficamos a conhecer mais um escândalo revelado! Mais uma maquinação de pessoas que estavam até aí fora de qualquer suspeita! Mais um negócio oneroso em que estão implicadas pessoas cuja honestidade podíamos garantir! Desvelam-se permanentemente segredos de venalidade, dinheiro público usurpado, corrupção, mais venalidade e traição! Horas inteiras de paleio e fofocas das quais ninguém sai intacto, se não por insultos e calúnias, pelo menos por uma subtil insinuação. Porque dos inimigos passamos para os amigos que não estiveram presentes, o mal não se encontrando, obviamente, apenas no campo dos outros. Ou só no campo deles. Em cada um dos nossos verificamos contradições entre o que dizem e o que fazem, cobardias baixas, pequenas vilanias, alianças vergonhosas, ambições ignóbeis! Sobre cada um de nós teríamos tanto para dizer, e até dizemos, porque os conhecemos mais de perto…” (págs. 287 e 288).

“Ao longo do cais, a Madame Nicolaid e a Margot passaram por baixo das janelas do comboio, oferecendo cigarros e pacotes com alimentos aos soldados: atrás delas vinha a criada com os cestos, e nós acompanhávamo-las, a uma certa distância. Como os pacotes da senhora Nicolaid acabaram mais cedo, começou a oferecer dinheiro, mas, porque não tinha trocos, agitou os espíritos, ao tirar uma nota de vinte lei e querendo que aquele que a recebera a dividisse com mais alguns. Claro que se esticaram várias mãos, eu! eu! eu!, e ela, intimidada com os pedidos cada vez mais imperiosos, deu-a, ao calhas, àquele que foi mais rápido. Os comentários ordinários dos desapontados, que me chegaram aos ouvidos, vindo eu mesmo atrás da senhora, entristeceram-me. Revoltaram-me, mesmo, daquela maneira que habitualmente me revolta a vida, cada vez que, descendo bruscamente das nuvens, choco com ela. E nesse preciso momento a Margot provocou outro pequeno incidente lamentável: ao ter a impressão, segundo explicou mais tarde, de que ouvira o sinal de partida, atirou os maços de cigarros que lhe tinham sobrado. Os coitados dos homens saltaram donde estavam, foram a correr agarrá-los, empurrando-se, insultando-se, esmagando mãos e dedos com as botas. Uma zaragata que lamentámos, porque estragava tudo que tinha sido tão bonito até então, pondo a nu, novamente, a pobreza e o primitivismo que nos regem. O meu estado psíquico instável e predisposto à melancolia fez-me ver, de repente, o espetáculo heroico de minutos antes descomposto em cenas quotidianas, um a tirar macacos do nariz, alguns a jogarem dados, outro a aliviar-se quase à vista de todos, um grupo atirando palavras obscenas às nossas generosas senhoras, outro metendo-se com algumas criadas húngaras… Depois, a bem conhecida confusão que tenho quando comparo o espetáculo da vida com a sua imagem ideal.” (págs. 322 e 323).

“Vá bardamerda com as tuas parvoíces! Não te vês ao espelho, sua amarela, só pele e osso, com todos os teus cosméticos e borgas! Vá bardamerda, larga essa porcaria de relógio e vai lá acima buscar o carcanhol! Traz cá o meu carcanhol que ainda desmaio de larica, já nem te vejo de tanta fome… Eu aguento, enquanto aguentar, mas quando perder as estribeiras, digo-lhe na cara! Se não lhe disser, quem é que fica de mãos a abanar? Sou eu, não sou? Pois, então?

– Não, Madame Delca, nada disso! A senhora está cheia de preconceitos! Onde é que está escrito que o senhor Delca tem de ter cento e vinte quilogramas com a idade dele! Desculpe lá que lhe diga, mas isso é algo que descuidou por completo! Quantas vezes não lhe dissemos, eu e a Muti: nada de fritos! Só aves e vitela – cozidas. Porco – só grelhado! Nunca frito na frigideira! Por favor, não fique chateada comigo, digo-lhe a si, como se fosse minha irmã: dieta e ginástica! Nada de macarrão! Nada de pão! Nada de caldos! Um bife grelhado, uma peça de fruta, ginástica, porque só o sedentarismo…

– Ó Madame Ivona, a sério! O que a madame diz é demais! Atão, se lhe juro que há mais de três meses que não meto carne na boca! O jejum que a gente fazemos, eu e o meu homem, até nos deviam pôr nos calendários com os santos! Se fizesse como diz a madame, em dois dias papava a reforma todinha! Sem caldos, sem macarrão, sem batatinha cozida, sem um feijãozinho – mas isso é a base da minha comida, nem consigo viver sem isso! Não consigo mesmo! Duas alminhas, seiscentos e cinquenta lei, e a renda, e a luz, e a televisão?

– Pois, se me puser no seu lugar, é mais complicado. Não vou negar que é, por isso é que lhe disse tantas vezes: eu admiro-a, Madame Delca, porque consegue governar-se com o pouco que recebe… Mesmo assim, se evitasse os fritos, se…

– Tretas! Eu sempre comi assim, e olhe que não morri! E dei de comer ao meu homem, e olhe que a gente nunca ficámos doentes! Que aquele que é magro, e nervoso, e esquisito, atrai todas as doenças e todos os males do mundo! Dietas é com os ricos! Eu já tinha dito isso à Madame Ioaniu e ela respondeu: tens razão, Vica! Quando se tem quatro ou cinco mil de reforma, juntos, podes empanturrar-te com tudo e mais alguma coisa, mas com apenas seiscentos lei, é comer pão com batata, ou passar fome. Com quatro mil de reforma, pode-se comprar carne, e refrescos, e morangos, e pastéis, tudo o que te der na real gana…

– Pois é, Madame Delca, pois é… Em comparação com a reforma baixinha do seu marido, pode parecer que nós… Mas, na realidade, não! Na realidade, a diferença não é assim tanta…

Esta gentalha é assim: dá-se-lhes uma mão e eles querem logo o braço todo! Eu trato-a de igual para igual, sou o mais simpática possível com ela, e ela atreve-se a julgar-nos! Julga-nos, conta-nos o dinheiro, porque as pessoas do povo são assim: o interesse prático primeiro! Eles não se perdem, como nós, em ideais, estão sempre com os pés bem assentes na terra, e por muito que lhes demos, nunca estão contentes; acham normal que se lhes dê, é quase um dever, e acham anormal que guardemos algum para nós também! Fala das nossas reformas e da reforma do marido dela como se nós tivéssemos alguma culpa por termos ido à universidade e por termos mais anos de trabalho! Quando só tu é que sabes os sapos que tiveste de engolir para ganhar essa reforma miserável! Tu não pudeste dar-te ao luxo de ficar em casa, embora tivesses muita coisa para te entreter, mas ela diz, alto e bom som: eu nunca gostei de trabalhar para o patrão! Então, se não gostou, fique aí quietinha, reduzida à sua insignificância! (págs. 419, 420 e 421).

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3 pensamentos sobre “Uma Manhã Perdida – Gabriela Adamesteanu

  1. Mais um belíssimo comentário, Sónia Maia! Com um artigo destes dá vontade de ler o livro! Tenho de agendar a sua leitura para breve. Deixo-te também a sugestão de outros dois nomes ligados à literatura romena: Herta Müller com vários títulos traduzidos para português sendo que o último publicado intitula-se “Já Então a Raposa era o Caçador”, “Projetos de Passado”, o livro de contos de Anna Blandiana que também já existe um ‘post’ aqui no blogue.
    E numa outra perspetiva, recomendo-te vivamente o soberbo e não menos original “O Museu da Rendição Incondicional” da croata Dubravka Ugrešić que também já é merecedora de um ‘post’ no blogue.

  2. Recomendações bem apelativas, como sempre, Jorge! O livro da morsa não me tenta muito, mas os outros dois…
    Quanto à Manhã Perdida, levo o livro hoje. Vou falar um bocadinho dele e depois, se quiseres, roda para ti. Vale mesmo a pena.

  3. Muito interessante. Foi o que achei quando soube deste livro. Agora, após a leitura de mais uma opinião de alto nível, tenho a certeza.

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