O Jogo Sério – Hjalmar Söderberg (Relógio d’Água)

O Jogo Sério - Hjalmar SöderbergQuem leu O Doutor Glas de Hjalmar Söderberg (1869-1941) certamente ficou com vontade de ler outras obras do escritor sueco. O Jogo Sério publicado recentemente também pela Relógio d’Água confirma a mestria do escritor na abordagem de temas do interesse geral questionando assuntos de natureza moral e ética de uma forma verdadeiramente surpreendente.

Se O Doutor Glas foi um livro que chocou a moderna Suécia aquando da sua publicação, em 1905, levantando questões relevantes e de forma clara e objetiva, tais como o adultério, o aborto e a eutanásia ao ponto de ainda hoje, passado mais de um século, continua a ser um livro atual ao ponto de nos continuarmos a debater com essas questões sem que, no entanto, parte da sociedade, pelo menos a portuguesa, não se mostrar preparada para debater estes temas em virtude da sua notória baixa escolaridade e um cultura pouco virada para debater este tipo de temas.

Em O Jogo Sério (1915), Hjalmar Söderberg continua a marcar pontos como um homem moderno, anticlerical e defensor da emancipação feminina. Estas qualidades são visíveis através do personagem principal muito introspetivo e racional, Arvid Stjärnblom, profundamente cosmopolita, interessado pelos assuntos políticos de todo o mundo, assim como pelas atividades culturais que têm lugar em Estocolmo.

Passado ao longo de aproximadamente vinte anos, Arvid Stjärnblom vai-nos dando conta dos seus amores e desamores com Dagmar Randel, sua esposa, e Lydia Stille, a mulher da sua vida que se tornou sua amante.

Arvid Stjärnblom tem plena consciência das dificuldades e desafios de ambos os relacionamentos que mantém com ambas as mulheres, porém, faz tudo por tudo para manter Lydia Stille entregando-se-lhe de corpo e alma desejando que o suplício do casamento termine e que a sua esposa descubra o seu relacionamento com a outra mulher.

Arvid Stjärnblom entra de tal forma neste jogo que se torna sério demais ainda que no fim seja um dos perdedores percebendo que afinal uma parte da sua vida foi completamente desperdiçada e que afinal Lydia não era exatamente aquilo que parecia.

À medida que Arvid Stjärnblom nos vai dando conta das alterações da sua vida pessoal, à conta da sua vida profissional, ficamos igualmente a saber quais foram os principais acontecimentos que tiveram lugar tanto na Suécia, como no resto do mundo desde finais do século XIX até à alvorada do novo século. No caso específico da Suécia, sem dúvida que o tema quente do momento é o facto de a Noruega pretender sair da União tendo a pretensão à sua soberania, tema que teve um forte impacto na opinião pública de então, sendo aqui apresentadas as duas posições. O outro tema que muito tocou os suecos foi o falecimento de August Strindberg, em 1912, considerado um dos escritores nacionais por excelência.

Na sua revisão pelo almanaque do tempo, Arvid Stjärnblom não deixou de referir que relativamente a 1910, um dado importante a referir foi que em Portugal a monarquia foi substituída pela República, não esquecendo que o vinho do Porto continua a ser um cartão de visita do nosso país em todo o mundo e nem na literatura é esquecido, tal como nesta obra.

O Jogo Sério é uma obra complexa que rapidamente nos prende porque facilmente nos conseguimos rever num ou outro personagem na medida em que a introspeção de Arvid Stjärnblom também poderá constituir a nossa própria introspeção face à nossa vida sentimental e amorosa. No fundo, o escritor apresenta-nos os assuntos do coração como um jogo sério, por vezes perigoso, inconsequente e cuja irracionalidade arrasta-nos com mais ou menos devaneios para o campo do amor seja ele concretizado ou não.

Uma vez mais, Hjalmar Söderberg apresenta-nos uma obra sem igual que juntando ao anterior O Doutor Glas, certamente se tornará um dos nossos escritores preferidos cujas obras dificilmente esqueceremos.

Excertos:

“A Sra. Kravatt tinha então pouco mais de trinta anos, era viúva dum porteiro e a melhor cozinheira da cidade. Em ocasiões especiais, chegava a cozinhar em casa do governador. Na sua vida privada, porém, ela não dava grande importância à comida. Interessava-lhe mais fazer amor. Arvid ia visitá-la aos domingos de manhã, e muitas vezes corria para casa dela à hora do almoço. Não era o único a usufruir dos seus favores. Partilhava-os com cinco ou seis amigos. Sempre que Arvid lhe dizia o quanto este facto o perturbava, ela respondia com simplicidade, sem qualquer mostra de afectação: «O que é bom é bom, e eu sou simplesmente humana!»

(…) É certo que ela cobrava pelos seus serviços, mas se os fazia era por mera formalidade e por uma questão de decência. A tarifa para estudantes do liceu era duas coroas, e não tinha problemas em conceder crédito, se eles estivessem mal de finanças. A Sra. Kravatt limitava-se a fazer o bem pelo bem, atitude que normalmente é tida como a mais moral a que um humano pode aspirar.

Arvid pensava agora nela com uma gratidão sem reservas e corava ao lembrar-se de que lhe ficara a dever quarenta e duas coroas. Em vão tentou encontrar apoio moral na recordação de que três dos seus colegas, pelo menos, tinham ficado a dever igual montante.” (pp. 31-32)

“«Mas terei eu alguma ambição?»

Começou de novo a caminhar pelo quarto. Dois, três passos para a frente; dois, três passos para trás. O espaço dificilmente consentia mais do que isso. Parou diante do espelho que havia por cima do lavatório.

«Qual é a minha ambição?», perguntou para si próprio.

E foi como se o espelho lhe respondesse:

«Se tens alguma ambição, para além de viveres a tua vida o melhor que puderes, então…»

Fitou o espelho com horror. Não, pensou ele, não – e quase implorou ao espelho: não, não me digas…

E pareceu-lhe que o espelho respondia:

«Bom, fizeste-me uma pergunta, e eu vou responder-te. Se tens alguma ambição, é esta: tens de criar de ti próprio um nome que fique na história do teu povo. Não na história da sua literatura, ou de qualquer dos seus aspetos secundários, mas na própria história do teu povo.»” (p. 35)

“«Já que queres saber… vou ser completamente sincero contigo. Não se trata apenas de não poder. Há outra razão. Eu tenho uma absoluta necessidade de solidão. Isso não significa, claro, que precise de ficar sozinho o dia todo. Mas quero ter o direito de começar e acabar o dia sozinho, sobretudo acabar. De refletir sozinho e de dormir sozinho. Acho que não fui feito para o casamento e a vida familiar.»” (p. 78)

“«(…) Não te queres casar – e fazes bem, não tens meios para isso. Mas a questão não é o que tu queres; a questão é: o que vai acontecer! Tu não escolhes! Não escolhes o teu destino, tal como não escolhes os teus pais ou aquilo que és: a tua força física, o teu carácter, a cor dos olhos ou as convoluções do cérebro. Toda a gente sabe isso. Ninguém escolhe a sua mulher, a sua amante ou os seus filhos. Arranja-os, tem-nos e talvez os perca. Mas não os escolhe!»” (p. 80)

Hjalmar Söderberg. Bonnierförlagens arkiv.

“«(…) Nessa noite, quando a rapariga que eu amava tinha casado, apeteceu-me ter também um casamento. E foi assim.»

«Hum. Que estranha moral a vossa, hoje em dia. Bom, mas as questões morais sempre foram um pouco estranhas, se formos a ver.»

«A rapariga tinha sido um acontecimento fortuito. Ela tinha um ‘noivo’, a quem provavelmente amava tanto como eu a ela, ou talvez nem isso… Tanto os homens como as mulheres são às vezes tomados por desejos que não podem ser definidos como morais ou racionais.»

«Sim, sim», disse o velho senhor, «já tenho ouvido falar dessas coisas.»

Houve uma pequena pausa.

«Quer dizer que ela nunca te exigiu que casasses com ela?»

«Nunca. Compreendeu que tinha sido um acidente. E como eu a ajudei – embora não com o meu dinheiro, como o pai sabe – a ultrapassar o acidente, a questão ficou resolvida. Agora ela tem a sua vida e nunca tenta contactar-me. O ‘noivo’, que eu nunca vi e se pôs a andar logo que lhe cheirou a esturro, devia ser um tipo muito ordinário. Para ela, é provável que eu tivesse sido uma espécie de príncipe encantado, uma aventura – sei lá eu. Quem sabe que aspeto a vida toma nos pensamentos e nos sonhos de uma pobre empregada de balcão? Desde então, ela nunca procurou contactar-me.”

(…)

«Seja como for, gostava muito de ver o teu rapaz», disse o velho.” (pp. 83-84)

“Os primeiros cristãos tinham um grande ódio e desprezo pelas mulheres – por razões que já não recordo – e não admitiam que uma mulher se convertesse num deus. Se assim fosse, a Virgem Maria, mãe de Deus, ter-se-ia transformado naturalmente em deus. Mas era mulher, e portanto não contava. Contudo, supostamente havia uma trindade. Então, convocou-se o Espírito Santo para funcionar como substituto. A decisão foi tomada num Concílio. Agora vou-te contar as últimas do Reino dos Céus: um pecador morre e sobe ao Paraíso, bate à porta e diz a São Pedro: «Desculpe, eu não estou destinado ao Paraíso, vou para outro lado, mas seria possível deixar-me espreitar por um buraquinho, só para ver como é?» «Ora essa, com certeza», diz São Pedro, e aponta-lhe as pessoas mais importantes. «Ali sentado está Deus Pai, aquele é Jesus» e por aí fora. «Mas», diz o pecador, «quem é aquele senhor ali, com um ar tão triste e melancólico?» «É o Espírito Santo», responde São Pedro. «Mas porque é que ele está tão triste?» Nisto, São Pedro sussurra ao ouvido do pecador: «Oh, está a cismar naquele concílio em Niceia, onde foi nomeado como terceira pessoa da Trindade, por uma escassa maioria de votos e obtida possivelmente com alguma batota… Isto que fique só entre nós, mas ele é a única pessoa que alguma vez se tornou divina por meio de eleições. E daí a sua infelicidade.»” (p. 149)

“Que estranha vida dupla é esta que tenho levado? Bem vistas as coisas, isto não pode continuar por tempo indefinido. Amo uma mulher e estou casado com outra, sem que esta tenha a menor suspeita. Isto não é a vida de um homem normal. É uma vida que só teria perdão, quando muito, se eu fosse escritor. A um escritor perdoa-se quase tudo. Ninguém sabe porquê, mas é um facto. Os escritores são considerados pessoas menos responsáveis.” (p. 158)

“O que menos me agrada no Strindberg é o facto de ele ter habituado os leitores de romances a perguntarem sempre quem é que as personagens representam, quem é este ou aquele e o que haverá de verdade em tudo aquilo. Habituou o leitor a pensar que os escritores atuais não conseguem inventar mentiras suficientes para encherem um livro. Desde então, os romancistas e os dramaturgos vivem num inferno. Já estou farto disso. Estou quase tentado a escrever um livrinho sobre aquilo que penso do mundo, mas sem usar personagens ficcionais como intermediários – livre de toda essa ornamentação estúpida. Raios partam os romances e as peças de teatro! Seja como for, só há um modo de vida digno de seres humanos: não fazer nada!” (p. 165)

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