Bordel Português – Nelson Quintino (Divina Comédia)

Bordel Português - Nelson Quintino

Bordel Português é o primeiro romance de Nelson Quintino e uma das primeiras apostas da Divina Comédia Editores. A história aqui apresentada é passada em Lisboa, cidade apanhada no meio da crise económica e financeira em que o desemprego disparou e as dificuldades em assegurar as necessidades elementares tornaram-se meras ilusões para muitos que passam a depender da ajuda de terceiros.

É neste contexto de profunda crise económica e social que surgem personagens como José Pendura Calmas, Gustavo Provisório e Henrique H, o epicentro de toda a história. Os laços que unem estes homens vêm desde os tempos em que viveram na Casa do Vendaval, um orfanato onde foram abandonados pelas suas famílias. Chegada à idade adulta e marcados, cada um, pela força do destino, mantiveram-se ligados muito à conta à criação da sociedade Sustos, Murros e Biqueirada, Lda, que tem como objetivo realizar serviços sujos, negócios pouco claros, limpar o sebo a indivíduos ainda menos sérios que estes amigos sócios e tudo em nome da sobrevivência do dia-a-dia. Uns euros aqui, outros acolá, a vida nunca se mostrou fácil para estes três amigos, que com o agravamento da crise que está por todos os cantos e recantos da cidade viram-se obrigados a engendrar os esquemas mais subversivos para ao menos não faltar pão para a boca ainda que por vezes, nem isso.

Este Bordel Português é uma viagem verdadeiramente alucinante repleta de ritmo e movimento pelos meandros da sociedade portuguesa. As particularidades dos três personagens indicados são apenas uma pequena amostra daquilo que os portugueses se tornaram com o passar do tempo em que a fuga aos impostos e os esquemas estranhos e manhosos que são postos em prática pelas camadas sociais mais baixas são apenas o reflexo da podridão que grassa na classe dominante, a classe política que, no conjunto, transformam Portugal num verdadeiro bordel de corrupção.

O autor, no entanto, vai mais longe na sua ironia como crítica à sociedade. Se por um lado, Henrique H é a figura central deste bordel que é Portugal, por outro, consegue transformar as fraquezas e eventuais limitações do personagem em imagem de marca catapultando-o para as luzes da ribalta ainda que por um período fugaz à semelhança do que acontece nos reality shows que invadiram as nossas televisões na última década. Um dia Henrique H é conhecido em todo o mundo ganhando mundos e fundos e no dia seguinte é enganado, entrando em falência, tornando-se rapidamente um desconhecido para todos. Tal é o preço da fama!

Tudo é fugaz, tudo é relativo e nada é importante, são os vazios com que nos deparamos no dia-a-dia para onde quer que nos voltemos. A crença no ser humano é posta em causa, daí que Henrique H gostaria de conhecer Deus passando a praticar o bem, mas o destino que lhe estava reservado era de tal forma pesado e negro que Deus nunca lhe respondeu. Da mesma forma que conheceu o sucesso, também terminou nu, sem nada e sozinho, em frente à Assembleia da República, a sorrir como que por ironia do destino.

Bordel Português de Nelson Quintino é uma surpresa agradável no âmbito das novas tendências da literatura portuguesa tendo-nos presenteado com um romance atual repleto de ironia. Definitivamente um livro que não vai querer perder este ano!

 

Excertos:

Um belo dia, porém, depois de consultar o horóscopo e um olho negro, Henrique resolveu mudar de rumo, ressuscitar para o bem e livrar-se do mal.

Henrique queria começar de novo, e a hora da mudança chegara.

Depois de um murro certeiro e de uma crise de intestinos, decidiu que estava na hora de viver longe dos precipícios. Perseguido desde a nascença pelo Diabo, queria livrar-se de todos os demónios e entregar a vida a Deus, mas para isso tinha de o encontrar.” (p. 11)

 

“A sua vida de empresário não seria fácil; a concorrência era muita e a crise não ajudava. De qualquer forma, Henrique não tinha alternativa. Não era possível arranjar outro trabalho sério em lado nenhum. O único trabalho honesto que lhe restava era a terapia sexual. Ou então a política, mas Henrique não nascera para estar sempre a dizer a verdade.

(…)

O que o encorajava não era apenas o dinheiro que iria ganhar; o que também o levava a dedicar-se à profissão de terapeuta sexual era o seu lado altruísta.

Henrique H queria fazer as mulheres felizes; desejava dar-lhes prazer até ao desfalecimento. As mulheres iriam finalmente esquecer-se da crise, do desemprego a subir em flecha, das filas intermináveis à porta dos centros de emprego, da crónica falta de dinheiro, das penhoras, do crédito à habitação que não eram capazes de pagar, das prestações em atraso do crédito automóvel, das dívidas, do fim de algumas deduções fiscais no IRS, do aumento do IVA.

Para ajudar à sorte e à festa, Portugal estava à beira da bancarrota; Henrique H estava convencido de que era preciso levantar o moral do país, e o seu patriotismo iria ser posto ao serviço do bem comum.

Depois de resolver dedicar-se à profissão mais antiga do mundo, sentiu que tinha encontrado a sua vocação; percebeu que tinha finalmente descoberto a sua missão na vida – ajudar o seu país. Ao mesmo tempo, sabia que podia ganhar muito dinheiro, livre de impostos.

Henrique H acreditava estar no rumo certo.

O altruísmo individualista que sempre defendera ia ser posto, mais uma vez, ao serviço da comunidade, ou seja, dele próprio.” (pp. 14-15)

 

Nelson Quintino“A melancolia que as pessoas traziam dentro desapareceu. O passado de nostalgia e saudade deu lugar ao presente de uma gargalhada que transformava em alegria todas as coisas, todos os seres, todos os espaços e todos os tempos.

Lisboa era uma gargalhada.

A alegria cresceu, tornou-se indomável. Em pouco tempo, a cidade tornou-se um lugar possuído pela beleza de uma gargalhada. As pessoas riam dos outros e de si próprias. Tudo era motivo de risada.

A tristeza desapareceu, e mesmo as consequências da crise e da austeridade se transformaram em motivo de humor e troça. As pessoas começavam a rir quando se pronunciava FMI, troika, fundo de resgate, crise, desemprego, penhora, miséria, dívidas, e outros termos que normalmente provocavam desespero e revolta, angústia e desânimo.

Numa dança orgíaca, a cidade cantava e dançava, festejava a vida e abraçava a esperança. Como se estivesse a viver um sonho, Henrique não conseguia parar de rir.

Em pouco tempo, o Martim Moniz encheu-se de gente. De todas as ruas apareciam pessoas que se juntavam ao frenesim contagiante daquela gargalhada. De mãos dadas, unidas na comunhão do riso sem fronteiras nem pátria, as pessoas beijavam-se, abraçavam-se, acariciavam-se, deitavam-se no chão a rir e davam pinotes; sem pensar duas vezes, faziam cair com determinação e sem medo a máscara do quotidiano e ganhavam coragem para libertar gargalhadas estrondosas.

(…)

A manifestação não autorizada que estava a invadir as ruas de Lisboa era presságio de uma catástrofe política, económica e social que iria pôr em causa a própria democracia.

Os meios de comunicação vinham noticiando, desde a entrada em vigor do plano de resgate financeiro, o aumento do descontentamento geral da população. Os portugueses, especialmente os trabalhadores e os reformados, estavam fartos de ver os seus rendimentos confiscados pelo Estado e a qualquer momento poderia rebentar uma convulsão social sem precedentes que destruiria os alicerces da nação.

A hora chegara.

Depois de inúmeras greves, e de manifestações constantes a favor da renegociação da dívida e do fim da austeridade, o povo saíra à rua. Descontente com a atuação do governo, o povo decidira tomar o poder. Sim, era disso que se tratava. O povo resolvera tomar de assalto a capital e refundar a pátria.

Ninguém estava em segurança. Tudo podia acontecer e era preciso fazer algo, embora ninguém soubesse muito bem o quê. A multidão estava desarmada e só alguns elementos empunhavam cartazes reivindicativos. No entanto, as autoridades temiam uma tragédia. Não podiam assistir a tudo sem pensar no pior. Queriam estar prevenidos.

(…)

Lisboa estava a rir à gargalhada e, num momento de crise como o que o país estava a atravessar, isso era uma afronta que tinha certamente origem nas hostes revolucionárias que queriam derrubar o governo e o capitalismo e mudar de regime.

(…)

A Revolução da Gargalhada começa em Portugal e ameaça estender-se por toda a Europa, noticiava um jornal inglês.

Um diário espanhol ligado à esquerda apelava à união de todos os revolucionários do mundo e confirmava aquilo que já se suspeitava – Portugal era agora o reino da gargalhada, o epicentro de todas as revoluções que iriam transformar o mundo.

(…)

A imprensa do Brasil foi unânime: Portugal estava no bom caminho e em breve sairia da crise profunda em que mergulhara. Um país que estava de joelhos e era capaz de rir à gargalhada daquela maneira era um país desenvolvido, civilizado e com um futuro promissor.” (pp.  119-121, 125-126)

 

“Todos os corpos transportam sons. Uns mais caóticos, outros mais harmoniosos; uns menos audíveis, outros mais. As palavras nescem muitas vezes dos sons que trazemos dentro, mas nem sempre lhes corresponde a verdadeira essência do que somos. Entre a mentira do que dizemos e a verdade do que ocultamos, entre a realidade das nossas fraquezas e a ficção das nossas forças, há sons e palavras que colidem; o conflito que as palavras por vezes instauram no silêncio transforma-se em caos interior, e representa a desordem múltipla e imparável em que definhamos; convencidos de que somos indestrutíveis, caminhamos sem olhar para o lado, e só quando uma voz alheia nos confronta com a evidência de termos nascido para morrer é que conseguimos ouvir os gritos da nossa pequenez.” (p. 221)

 

“No meio do caos, da confusão, do barulho da cidade, o movimento criava a irracionalidade, e essa falta de razão apoderava-se dos corações. A solidão, o desespero, a tristeza aumentavam. Aumentavam também os divórcios, as separações, os suicídios, as depressões. A crise não era apenas material – Portugal estava numa crise mais profunda; a crise era também espiritual.

Henrique passava muito do seu tempo a pensar no futuro do país, isto é, no seu futuro.

Em que é que eu acredito?, perguntava-se. Esta pergunta, fazia-a constantemente. O país estava perdido, sem rei nem nevoeiro. Ninguém sabia em quem acreditar e por isso ninguém acreditava em nada. Não havia um sentido, um projeto, um sonho, um desígnio coletivo em que as pessoas depositassem as suas esperanças. Cada um por si era o lema. Henrique não queria ser diferente. E portanto pensava apenas em si. Não o podiam censurar, considerava ele. Apesar de Portugal ser um caso perdido, Henrique não se queria perder.” (pp. 332-333)

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