“O Sino” de Iris Murdoch

 

 

A escolha de um livro para ler pode basear-se em numa multiplicidade de critérios; na opinião de alguém que conhece a obra e recomenda a sua leitura, num impulso súbito de atracção por uma capa e/ou um título vistos na estante de uma livraria ou de uma biblioteca ou, ainda, numa simples curiosidade em conhecer algum autor de quem se ouviu vagamente falar.

Este último motivo levou-me até Iris Murdoch considerada uma das grandes romancistas da literatura inglesa do século XX. Sendo, por formação, filósofa, a sua obra reflecte um omnipresente interesse pelos meandros da consciência humana em todas as suas inúmeras facetas bem como questões éticas muito acentuadas. “O Sino” espelha bem estes aspectos e a conta-nos  história de um grupo de pessoas quase exclusivamente através de um percurso em torno das introspecções de 3 personagens. Como seria de esperar, a caracterização psicológica destas é feita com grande pormenor e mestria, embora o recurso a esta estratégia dificulte, um pouco, a progressão da leitura. Contudo, o modo como a narrativa se desenrola prende atenção do leitor e o final vem a revelar-se bastante surpreendente.

A leitura deste livro recordou-me uma citação sobre o livre arbítrio do escritor Isaac Bashevis Singer que vi há pouco tempo:

“The greatest gift which humanity has received is free choice. It is true that we are limited in our use of free choice but the little free choice we have is such a great gift and is potentiallly worth so much that for this itself life is worthwhile living.”

“ A maior dádiva recebida pela humanidade é o livre arbítrio. É verdade que somos limitados quanto ao seu uso, mas o pouco livre arbítrio que possuímos é uma dádiva tão grandiosa e potencialmente tão valiosa que, apenas por isto, a vida merece ser vivida.”

Excertos de “O sino”:

“Dora aceitou a proposta de casamento sem hesitar, por muitas razões. Casou-se com ele por causa do seu bom gosto e do seu apartamento em Knightsbridge. Casou-se com ele por causa de um certa integridade e nobreza de carácter que viu nele. Casou-se com ele porque ele era tão maravilhosamente mais crescido que os amigos dela da faculdade, todos magros e neuróticos. Admirava-o e sentia-se lisonjeada com as suas atenções. Esperava, ao fazer o que a mãe (que estava roída de inveja) chamava “um bom casamento”, poder entrar na sociedade e aprender a comportar-se; embora isso fosse uma coisa de que, na altura, não tivera grande consciência. Casou-se, finalmente, por causa da intensidade demoníaca do desejo de Paul por ela. Ele era um pretendente apaixonado e poético, e alguma coisa que ele tinha de exótico tocou a imaginação de Dora, apoderou-se da sua parca educação, que continuava bastante insatisfeita entre os divertimentos bastante infantis e provincianos da sua vida de estudante. Dora, embora insuficientemente crítica para sofrer de fortes complexos de inferioridade, nunca se tivera em grande conta. Ficou espantada por Paul sequer reparar nela, e passou rapidamente deste espanto para o luxuriante prazer de ser capaz de, com tanta facilidade, encantar esta pessoa subtil e sofisticada. Nunca duvidou de que estava apaixonada por ele.”

“Quando Michael chegou ao quarto, deitou-se imediatamente no chão, e durante algum tempo foi como se, impelido por um profundo desejo de estar escondido, toda a consciência da sua personalidade o tivesse abandonado. O choque do que acontecera e a intensidade do pesar que sentia deixaram-no bastante atordoado. Ter pensado nisso, ter sonhado com isso, sim. mas tê-lo feito! Enquanto Michael contemplava aquela minúscula distância entre o pensamento e acto, foi como se uma pequena fenda que ele observava estivesse a abrir-se num abismo.”

Sinopse: Uma comunidade laica de pessoas completamente confusas está instalada nas proximidades da abadia de Imber, lar de uma ordem de freiras que vivem em total clausura. Na altura em que está prestes a ser instalado um sino novo na torre da abadia, o sino antigo, símbolo lendário de religião e magia, é redescoberto e vai provocar muitas transformações. Dora Greenfield, mulher adúltera volta para o marido. Michael Meade, líder da comunidade, é confrontado com Nick Fawley, com quem teve uma relação homossexual desastrosa. A velha e sensata abadessa observa, reza e exerce uma autoridade discreta, e todos, ou quase todos esperam ser salvos…

“O Sino” é uma história sobre a luta entre o bem e o mal e os acasos terríveis da fragilidade humana.

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