A Vida em Surdina – David Lodge

A vida em surdina

O personagem principal e narrador deste livro, Desmond Bates, é uma personagem complexa, com uma cultura acima da média, Professor universitário de linguística recém-reformado, homem de família no seu segundo casamento e, acima de tudo, possuidor de uma mente lúcida e de um sentido de humor agudo e contagiante. A sua decisão de escrever uma espécie de diário, onde regista os acontecimentos que marcam os seus dias e as reflexões que os mesmos lhe suscitam, é quase um recurso terapêutico, uma forma de racionalizar e dissecar as mudanças que a sua vida tranquila sofre em consequência das crescentes dificuldades auditivas que o afligem e da reforma a que essas mesmas limitações quase o obrigaram.

A prosa começa em tom ligeiro, provocando mesmo ataques de riso ao descrever, com um apuro tragicómico, os obstáculos levantados pela surdez a um comportamento social adequado. No entanto, logo aí, por muito que o estilo peculiar deste autor nos cative e divirta, não podemos deixar de intuir uma seriedade subjacente, uma espécie de subtexto mais grave sobre a intensidade dramática de que se revestem, para o protagonista, os incidentes aparentemente inócuos que nos são relatados de forma tão jocosa. Simpatizamos de imediato com Desmond, que, além de nos fazer rir, nos desperta empatia ao admitir-se envergonhado, receoso e até um pouco deprimido por ficar mal visto ao não conseguir acompanhar conversas na totalidade e por se aperceber da exasperação que provoca em quem com ele convive. Ao longo do livro, essa empatia aumenta gradualmente: a clareza de raciocínio de Desmond, o seu sentido crítico aplicado a pormenores do dia-a-dia que reconhecemos das nossas próprias vidas, a sua desaprovação irresistivelmente lógica de pequenos detalhes que, instintivamente, sabemos que nos provocariam uma reacção semelhante, fazem com que nos identifiquemos muito mais com ele do que seria previsível.

Como seria de esperar de um linguista, Desmond usa, no seu “diário”, vários artifícios estilísticos. A alternância entre a primeira e a terceira pessoa é a mais evidente, sendo a terceira pessoa usada como forma de distanciamento de acontecimentos traumatizantes. No entanto, com a intensificação progressiva do conteúdo narrado, as preocupações formais assumem uma relevância cada vez menor, acabando por ser postas de lado em favor de uma catarse cada vez mais envolvente.

À medida que a história progride, o elemento dramático e intimista vai-se intensificando. A relação de Desmond com o pai é o espelho dessa evolução: c0meçando por episódios tristemente engraçados, onde, através de situações levemente ridículas, nos é transmitida a dificuldade de comunicação com uma pessoa idosa, obstinada, voluntariosa e também um pouco surda, as descrições de Desmond tornam-se depois mais e mais pungentes, à medida que a saúde do pai se deteriora e a transitoriedade de tudo o que compõe uma vida surge cada vez com mais clareza.

Por fim, a visita de Desmond a Auschwitz e os paralelismos que se estabelecem na sua mente entre aquilo que aí viu e diversos aspectos da sua própria vida fornecem uma conclusão exímia a uma história magistralmente contada. É impossível não se dedicar algum tempo a digerir este livro depois de o terminar. As questões que levanta e a candura com que são tratadas deixam-nos entregues às nossas próprias reflexões.

Excertos:

“Os cegos têm páthos. As pessoas que vêem bem encaram os cegos com compaixão, desviam-se do seu caminho e fazem de tudo para os socorrer, ajudam-nos a atravessar estradas movimentadas, avisam-nos da presença de obstáculos, afagam os seus cães-guia. Os cães, as bengalas brancas, os óculos escuros, são sinais visíveis do mal que os aflige e suscitam uma onda imediata de solidariedade. Nós, os moucos, não temos nenhum sinal de alerta que instigue compaixão. As nossas próteses auditivas são praticamente invisíveis e não temos nenhum aninal querido a tomar conta de nós. (Qual seria o equivalente de um cão-guia para os surdos? Um papagaio ao ombro a guinchar-nos ao ouvido?) As pessoas que não nos conhecem só se apercebem de que somos surdos depois de passarem vários minutos a tentar comunicar connosco em vão, e quando isso acontece, o sentimento que as assola é de irritação e não de dó. «Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeço diante do cego», diz a Bíblia (Levítico, 19:14). Bom, só um sádico pregaria uma rasteira a um cego, mas até a Fred solta um »Porra!» de vez em quando, quando não consegue comunicar comigo. Há profetas e videntes cegos – Tirésias, por exemplo -, mas nunca surdos. Imaginem o que seria fazerem uma pergunta à Sibila e levarem com a resposta: «O quê? O que é que disse?» (págs. 21-22).

“O incidente provocou em mim uma daquelas minhas crises de «onde é que este mundo vai parar», crises essas a que sou cada vez mais propenso e que são suscitadas por fenómenos como o Big Brother, a utilização de palavrões num jornal como o Guardian, anéis vibradores para o pénis à venda em qualquer farmácia, gente completamente bêbada a vomitar no centro da cidade ao sábado à noite e quimioterapia para cães e gatos. De certo modo, é mais fácil concentrar a raiva e o desespero nestes pequenos delitos, comparativamente triviais, que atentam contra o bom-senso e os bons costumes, do que nas grandes ameaças que pairam sobre a civilização, como o terrorismo islâmico, o conflito israelo-palestiniano, o Iraque, a sida, a crise energética e o aquecimento global, que parecem impossíveis de controlar, seja por quem for. Acho que nunca me senti tão pessimista como hoje em relação ao futuro da raça humana, nem sequer no auge da Guerra Fria, porque agora há tantas mais maneiras possíveis de a civilização acabar em catástrofe, e ainda por cima a curto prazo. Provavelmente não durante o meu tempo de vida, mas possivelmente durante o tempo de vida do filho que a Anne tem na barriga.” (págs. 123-124).

“Qual é a explicação para esta praga do Natal que brota em toda a parte? Quando eu era miúdo, o dia de Natal era feriado e depois a vida voltava ao normal, mas agora o Natal prolonga-se sem interrupções até ao fim de ano, uma festividade ainda mais sem sentido, o que significa que o país inteiro fica paralisado durante pelo menos dez dias, estupidificado por ter bebido demais, dispéptico por ter comido demais, falido por ter gasto demais em prendas inúteis, entediado e irritadiço por ter estado trancado em casa com familiares chatos e crianças rabugentas, e com os olhos com a forma do ecrã de tanto ver filmes antigos na televisão. É a pior altura do ano para se ter umas férias prolongadas à força, sendo as condições meteorológicas mais tristes que nunca e estando as horas de luz solar reduzidas ao mínimo. O Scrooge é o meu herói – isto é, o incorrigível Scrooge da primeira parte de Um Conto de Natal. «Pff, que disparate!» Ele tinha toda a razão. Que pena ele ter mudado de ideias. (pág. 170).

“Os acontecimentos destes últimos dois meses não param de provocar em minm ecos e referências cruzadas como essa: a vela votiva a tremeluzir na escuridão, no cascalho do crematório de Auschwitz, e a luz nocturna que pus na mesinha-de-cabeceira da Maisie, quando ela adormeceu para sempre; pijamas hospitalares e uniformes prisionais às riscas; a imagem do corpo nu e enfraquecido do meu pai no colchão do hospital, quando ajudei a lavá-lo, e as fotografias granitadas de cadáveres nus amontoados nos campos da morte. Foi uma espécie de educação para mim, a experiência destas últimas semanas. «A surdez é cómica, a cegueira é trágica», escrevi eu no início deste diário, e fiz variações com base na proximidade fonética entre deafdead, «surdo» e «morto», mas agora parece-me mais importante dizer que a surdez é cómica, e a morte, trágica, porque é definitiva, inevitável e inescrutável. Como disse Wittgenstein: «A morte não é um acontecimento da vida.» Não podemos vivê-la, podemos apenas vê-la acontecer aos outros, com diferentes graus de compaixão e medo, sabendo que um dia teremos o mesmo destino. (pág. 331).

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5 pensamentos sobre “A Vida em Surdina – David Lodge

  1. Mais um excelente texto, Sónia. A minha vontade de ler este livro aumenta exponencialmente com cada post publicado sobre o mesmo.

  2. Este foi o primeiro livro sugerido na Roda dos Livros. Fico contente de ver o seu percurso e a forma como todos gostam dele. É sem dúvida um livro que merece este mérito. Que deve ser divulgado.
    Quanto ao teu texto Sónia, brilhante, como sempre. Continua.

  3. Obrigada às duas! Realmente o livro tem muito que se lhe diga, não é de maneira nenhuma tão ligeiro como parece. Para o comentar devidamente, seria preciso escrever outro livro!

  4. Foi o primeiro livro que li na “Roda”, a primeira paixão desta experiência de “trocas”… Parabéns à Sónia que, alguns meses depois, me fez reviver todas as sensações que o livro me suscitou. Mais um magnífico comentário, uma análise perfeita… És mesmo boa nisto, Sónia Maia!

  5. Parece que as opiniões acerca de “A Vida em Surdina” se mantêm, todas na mesma linha. De facto surpreendeu-me bastante este livro. Confesso que não estava à espera de gostar tanto dele (por vezes as boas surpresas vêm precisamente de onde menos esperamos.
    Uma excelente tradução, que não deve ter sido fácil.
    Ainda bem que gostaste Sónia.
    p.s. Márcia…a continuar assim o Desmond só regressará ao Montijo pelo Natal 😀

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