A Irmã de Freud – Goce Smilevski

freudNos segundos anteriores à morte temos a capacidade de rever toda a nossa vida como se de um filme se tratasse. Dizem.

Adolphine sabe que vai morrer. Está prestes a ser gaseada num campo de concentração nazi. Idosa, recorda a sua vida à medida que o cheiro acre do gás vai tomando conta do ambiente. E então, através das suas memórias, conheci a sua família, a sua infância dolorosa e marcante como filha de uma mãe que nunca a aceitou e claramente tratou de modo inferior aos outros filhos. Adolphine, enjeitada pela mãe, encontrou consolo na amizade do irmão Sigmund e junto de alguns amigos que a vida foi colocando no seu caminho. As marcas desta infância de ostracismo duram para sempre, orientam a sua existência de tal forma, que todos os seus dias são tortuosos.

O amor da sua vida morre na sua frente deixando-a só e grávida. Todas estas condicionantes fariam com que, nos dias de hoje, lhe fosse diagnosticada uma doença do foro psiquiátrico. Seria submetida a um tratamento. No despontar do século XX Adolphine era uma louca. A própria se considerou como louca, internou-se de livre vontade num sanatório chamado “Ninho”.

Sei quem foi Freud. Conheço pelo menos os chavões como é designado, tal como “o pai da psicanálise”. Mas não sabia nada sobre a sua vida. Este livro, apesar de não ser diretamente sobre Freud deu-me uma visão que eu não tinha sobre a pessoa que foi, os avanços que os seus estudos proporcionaram, operando uma mudança colossal na forma como era tratada até então a chamada loucura.

Curioso como é a sua própria irmã, Adolphine, que é considerada louca quando Freud se debatia por dar uma outra condição a pessoas perturbadas, por encontrar as razões e a cura de tais distúrbios.

Sigmund deixa as suas quatro irmãs na Áustria e viaja para Londres. Foge da perseguição nazi e tem a possibilidade, dadas as suas influências, de levar dezasseis pessoas. Leva inclusive o cão. As irmãs ficam para trás. Segundo Sigmund “Hitler não tem como concretizar as suas ambições. Dentro de poucos dias a França e a Grã- Bretanha forçá-lo-ão a retirar as tropas da Áustria, e, em seguida, será derrotado também na Alemanha. Serão os próprios alemães a fazê-lo cair; o apoio que atualmente lhe estão a dar resulta apenas de um eclipse temporário da racionalidade deles” (Pág. 14).

O abandono de Sigmund implica que as irmãs sejam levadas. É no momento da morte que Adolphine recorda as suas memórias mais dolorosas.

Denso e duro como um murro no estômago, este livro proporciona uma viagem de emoções a que é impossível ficar indiferente. Escrito de forma simples mas muito singular, alcança a nossa intimidade e atinge os nossos próprios medos de forma acutilante. Marcante. “A Irmã de Freud” ficará comigo para sempre.

“No início da minha vida, houve dor. Era como sangue a gotejar aos poucos de uma ferida que não se vê. Gota a gota. Embora eu fosse uma criança com propensão para a doença, não eram as minhas enfermidades que me faziam sofrer, mas a minha mãe.” (Pág. 53)

“Eu tentava evitar essa pergunta, que uma qualquer sombra em mim insistia em colocar, da mesma maneira que evitava ver-me aos espelhos. A minha casa era, em si, uma espécie de espelho, uma sombra da sombra que me colocava aquela questão vacilante entre a existência e a não existência, e por causa disso, mesmo quando o frio se me infiltrava nos ossos, mesmo quando o vento me fustigava com tanta força que era forçada a fechar os olhos, eu vagueava pelas ruas, parava nas pontes, entrava numa sinagoga ou numa igreja, sentava-me num banco, arejando a minha alma como se fosse um tecido impregnado de um cheiro acre. Enquanto deambulava pela cidade, por vezes o meu olhar fixava-se involuntariamente numa vidraça, nas águas do rio ou numa poça na rua, e, inadvertidamente, eu ficava olhos nos olhos comigo mesma, via o meu olhar contemplar uma ausência. Por mais que eu silenciasse a sombra no meu íntimo, por mais que eu desviasse o olhar para a luz que devia destruir a existência dessa sombra, a sombra fazia constantemente a mesma pergunta: Viver ou não viver?” (Pág. 157)

“-Estás a sentir alguma coisa aí? – perguntou ela. Eu não lhe respondi. – É a vida que te está a magoar – explicou ela então. – Mas isso também há-de passar.

Nunca antes alguém me tinha dado qualquer indicação de ter reparado no meu sofrimento – naquilo que desde a minha infância, me magoava tanto que mais parecia estar a arrancar-me o coração do peito. Embora essa dor já não existisse, nem a ferida invisível que abrira, a Klara tinha-se apercebido do vestígio que permanecera.” (Pág. 178)

Sinopse

“Em 1938, numa Áustria ocupada pelo regime nazi, Sigmund Freud recebe um visto para fugir para Londres e, assim, escapar à ameaça de terror. Da lista de 16 pessoas que pretende levar consigo fazem parte a cunhada, o médico, as criadas e até o seu pequeno cão, mas nenhuma das suas quatro irmãs. É pela voz de uma delas, Adolfine, que conhecemos esta história assombrosa sobre a família Freud. Deportada para o campo de concentração de Terezín, «a melhor e mais doce irmã» do psicanalista conhece Ottla, a irmã amnésica de Franz Kafka, a quem confidencia as suas memórias. Emerge o retrato de uma menina sensível e doente que vive a infância em simbiose com o irmão Sigmund, o mentor que a guiava na descoberta da vida. O retrato de uma jovem inconformada com o papel que a sociedade lhe impõe, amargurada pelo desprezo da mãe e pela partida do irmão. Por fim, o retrato de uma mulher só, que se sente apenas meia mulher por nunca ter sido mãe. O cenário da história da família é a Viena da viragem do século, uma época de incomparável esplendor artístico e intelectual, que serviu também, e ironicamente, de pano de fundo a alguns dos acontecimentos mais traumáticos do século XX.”

Alfaguara, 2013

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