Necrópole – Santiago Gamboa

1

Parti para a leitura deste livro sem saber o que me esperava. As minhas motivações resumiam-se à recomendação de alguém em cujo gosto literário tenh0 grande confiança e na curiosidade em saber qual seria a diferença entre pornografia “de direita” e “de esquerda”. Assim, fui apanhada totalmente desprevenida pelo vórtice desta narrativa que, parecendo inicialmente ligeira e até cómica, enreda o leitor incauto numa teia onde se misturam questões metafísicas, religiosas, históricas e políticas.

A acção passa-se numa Jerusalém sob constantes bombardeamentos, num congresso algo surrealista para o qual foram convidadas diversas personalidades ligadas à escrita para relatarem experiências, próprias ou alheias, que “mereçam ser contadas” (pág. 17). O narrador principal é um escritor colombiano residente em Roma que recebe o convite com alguma surpresa, visto estar inactivo há cerca de dois anos por motivos de saúde. O hotel onde decorre o congresso é constantemente sacudido por repercussões da violência destrutiva que decorre do lado de fora das suas paredes, a qual os congressistas optam por ignorar tanto quanto possível, encarando o dito hotel como uma fortaleza protectora contra o caos exterior, criada pela beleza das palavras que aí são expostas e ouvidas. Por fim, a aparente ordem estética dos discursos é engolida pela guerra que os envolve, não sem antes terem sido apresentadas diversas palestras e realizadas mesas-redondas através das quais tomamos contacto com relatos diversos sobre vidas fora do comum, cada um narrado num tom e estilo muito próprio.

Apesar de muito distintas, as histórias que aqui se cruzam acabam por nos remeter para uma mesma realidade: a de protagonistas em desespero, cujas vidas se desestruturaram pelos mais variados motivos e que seguem o seu caminho com um único objectivo: o de encontrar uma forma de redenção, um rumo que os conduza a esse ideal esquivo mas sempre almejado – a felicidade. Todos buscam esse ideal de maneiras diferentes e cada um o encontra sob uma forma diferente, incluindo o próprio narrador. Curiosamente, descobrimos que a felicidade pode residir, para dois indivíduos, em duas realidades totalmente opostas: o êxito ou a vida simples, a vingança ou a dedicação ao próximo. Em comum,estas experiências têm o ponto de partida – a desagregação da existência – e o ponto de chegada – a paz finalmente alcançada. E ainda várias pistas que o autor nos fornece, quase nos obrigando a estabelecer ligações entre as várias vivências, como a repetição em todas as histórias do nome Ebenezer e do mesmo sonho evocativo da destruição de uma cidade (a qual acaba por nos ser revelado tratar-se de Orplid, uma cidade imaginária e paradisíaca descrita no livro Maler Nolten de E. Mörike, que um dia é destruída pela fúria dos Deuses por se ter tornado demasiado civilizada). A guerra e os respectivos horrores estão sempre presentes, assim como a ameaça de destruição iminente, ou não decorresse a trama na própria Necrópole, a cidade da morte – “tudo isto, disse Momo, não é mais que a entrada nesse lugar que desde aqui não se pode ver, mas está lá em baixo, o vale de Josefat, de onde soaram as trompetas do Juízo Final, pois esta cidade, no fundo, está feita para a morte. De todos por igual. Por isso é a grande necrópole do Oriente e do Ocidente.” (pág. 348).

As referências literárias estão também presentes ao longo de todo o livro. Algumas  ajudam à compreensão do texto, como a remissão para Orplid acima mencionada, enquanto outras são piscadelas de olho bem-humoradas do autor ao leitor – como o súbito aparecimento de um advogado chamado Uriah Heep, quase tão detestável como o personagem de David Copperfield e até com uma mão igualmente “húmida e fria, como a dos répteis” (pág. 203). Mas todas elas contribuem, a par da natureza das questões levantadas e do sarcasmo cortante em algumas passagens, para transformar a leitura desta obra numa experiência inesquecível.

Nota: as definições de pornografia “de esquerda” e “de centro-direita” são imperdíveis. Naturalmente, não vou revelá-las aqui, nem identificar as páginas em que se encontram. Quem quiser apreciar a ironia subjacente às mesmas, terá de ler o livro… e, certamente, não se arrependerá.

Excertos:

“Assim transcorriam os dias em Moiundsville, fazendo-se e desfazendo-se, metendo-se droga nas veias e inventando armadilhas para estar concentrado nalgum canto, que é como se queria estar todo o tempo, anulando os demais e anulando a prisão, com os seus guardas e os seus chefes, e assim andava eu, numa dessas andanças, quando choquei com ele de frente; vi quase em cima de mim a sua figura de atleta e esses olhos de menino extraviado que induziam em erro, crendo que se tratava de um ranhoso imberbe, e recordo que me disse, de que céu caiu este anjo? Devo tê-lo dito em voz alta, pois de imediato me respondeu, já não me chamo Ángel, agora sou Walter e vim salvar-te. E eu respondi-lhe, alegro-me por isso, foda-se, já era hora de que lá no céu as coisas se mexessem, estou à espera há anos, há quanto tempo têm os meus dados?, vá, o Comandante Eterno, Don Chuchito, O Próprio, às vezes demora-se, não achas?, mas bom, antes tarde que nunca, portanto, vamos por partes, se de verdade me vens salvar, a primeira coisa que tens de fazer é transferir cinquenta pesetas, e a minha conta está aqui no bolso, é a número zero um, podes fazer a transferência por via telepática, mas a máquina está avariada, portanto, o melhor será que a faças por interposta mão, que é o mais efetivo, e depois, quando tiver o emolumento registado, poderemos sentar-nos como duas pessoas civilizadas e falar de Deus ou de Maomé ou da prima fufa da Madonna, do que mais gostares (…)” (págs. 64-65).

“A razão assistia-nos, pensámos, Deus terá que ajudar-nos. Fiz averiguações e soube de alguns políticos que eram amigos dos paramilitares. Encontrei-os num restaurante e disse-lhes, porque é que os paramilitares são cruéis connosco?, não pagamos impostos e criamos trabalho?, não merecemos respeito? Mas os políticos dos paramilitares disseram: vocês são empresários, trabalhadores e honestos, deviam apoiá-los; os paramilitares estão a defender os empresários e as famílias trabalhadoras deste país. Eu disse-lhes: não precisamos desse tipo de protecção, temos que respeitar uma história, ouviram falar do Holocausto?, não podemos negociar com assassinos, somos judeus. Os políticos dos paramilitares olharam para mim com seriedade e disseram, estudaremos o caso, transmiti-lo-emos, mas esse estudo e essa mediação têm um custo, vocês podem pagá-lo, são prósperos; eu disse-lhes: não são vocês eleitos pelo povo?, já têm um salário, esse é o vosso pagamento, porque devo pagar-lhes? Olharam para mim surpreendidos mas o gesto, pouco a pouco, começou a decompor-se; primeiro, um suave riso, depois, uma estrondosa gargalhada que deformou as suas caras, tingiu as suas bochechas, inflamou os seus olhos. Um deles disse, ai, senhor, que gracioso é você, todos os judeus têm esse humor?” (págs. 149-150).

“Gunard escutou-o olhando de novo para o tabuleiro, e disse, tens razão, não são todos o ás, mas nem sempre ser o ás te assegura uma vida feliz; pode ser que seja muito mais feliz o seis de espadas. Ah, as grandes vidas! No geral, são seres que sofrem, humanidades desadaptadas; uns porque a sua vocação foi tão avassaladora que acabou com tudo o que não servisse aos seus fins, outros porque as suas ânsias nunca se viram atestadas; o espelho que foge, a vaidade do êxito e da celebridade; outros porque, às vezes, o talento está associado a tremebundos defeitos e vícios, a gravíssimas carências… (pág. 210).

(…)

“Coltodino bebeu a sua cerveja escutando-os e disse, como é que vocês, em quem a paixão pelo xadrez se complementa com um jogo poderoso, não desejaram chegar mais longe?, e Gunard disse, há que submeter-se a demasiadas pressões. Oslovski confirmou as palavras do seu amigo, e acrescentou, que prémio existe no mundo que seja maior do que este? Observar o entardecer no mar, jogar com um amigo, beber e comer, ah?, é a vida, amigo. Viver, que privilégio, quer uma sanduíche?” (págs. 213 e 214).

“Esses anos já terminaram e José está morto, Walter também está morto e eu, de algum modo, também o estou, tudo isso se acabou; sobrevivo num mundo que já não existe e que não tem lugar neste, nada do que fomos pode ser entendido hoje por ninguém, ninguém acredita no que acreditávamos; as coisas que eram importantes para nós produzem riso ou curiosidade, compreende? Estamos mortos, estamos todos mortos.” (pág. 403).

“O ar parecia-nos tão limpo que feria as fossas nasais. Não havia bombardeamentos nem fumo, nem o acre odor das lixeiras, não havia pneus a arder nem entardeceres em chamas; tampouco luzes azuladas pelo fragor dos morteiros, nem violentas conflagrações. A cidade não estava sitiada pela guerra, mas sim pela banalidade e a indiferença. O horror não estava no ar carregado de pó e químicos, mas sim nos olhares anónimos dos transeuntes, nas suas gélidas pupilas, nos gestos dos mais jovens, nesses homens e mulheres que caminham com indiferença pelos paralelos das praças, na atitude derrotada dos velhos. Aí estava o horror. Qualquer das cidades de que provínhamos nos pareram, de repente, igualmente frias e desumanas. Igualmente cruéis. Como explicar essa profunda rejeição?, como transmitir essa certeza de que algo nelas era erróneo, profundamente equivocado?, como nomear esse sentimento do insubstancial e vácuo? (págs. 417 e 418).

Anúncios

2 pensamentos sobre “Necrópole – Santiago Gamboa

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s