A Mulher de Porto Pim – Antonio Tabucchi (Coleção 98 Mares)

A MULHER DE PORTO PIM 001

A Mulher de Porto Pim é uma obra singular de Antonio Tabucchi que escolheu Portugal para viver durante mais de 40 anos tendo falecido em 2012.

A obra apresenta as baleias como tema central e unificador ao longo das três histórias que nos apresenta e a relação e semelhança destes mamíferos com os homens. A história começa na Alemanha, avança para os Açores, nomeadamente para as ilhas do Faial e do Pico onde, durante décadas, se praticou a caça à baleia, passando pela legislação em vigor em Portugal no que respeita à prática em apreço. A partir de determinado momento do livro, é o próprio autor que relata as suas experiências ao visitar o arquipélago e termina com a história Mulher de Porto Pim que dá título à pequena obra e que nos conta a história de um amor correspondido, mas interrompido e porque se tratou de um amor deveras sentido terminou em tragédia à semelhança de quando é morta uma baleia em que a água à sua volta rapidamente adquire a tonalidade encarniçada.

Ler A Mulher de Porto Pim é revisitar o arquipélago dos Açores e recordar a geomorfologia de cada ilha, o tempo que tanto condiciona a vida das populações locais e as suas actividades, as suas festas e procissões, manifestações religiosas e culturais profundamente enraizadas na alma da gente açoriana, as limitações nas ligações inter-ilhas e, muitas vezes até em cada ilha e a forte ligação das populações ao mar como fonte de rendimento, mas também como fator primordial do sentimento de insularidade.

Antonio TabucchiA emigração para a América também não foi esquecida, assim como a noção de se ter vivido a vida e não esperar nada mais dela andando à mercê de Deus como que se tratando da consumação do destino.

Não poderei dizer que estamos perante uma obra prima da literatura, no entanto, A Mulher de Porto Pim apresenta-nos uma forma de contar histórias diferentes, encantadora, quase como se tratassem de histórias de embalar ao som das ondas do mar tendo as baleias como aspeto unificador de todo a obra.

Para quem vive ou viveu nos Açores, este livro desperta a melancolia característica dos ilhéus. Quem nunca visitou os Açores, desejará certamente fazê-lo pelas descrições das ilhas e das suas gentes ao longo da obra.

Boa viagem!

Excertos:

MadalenaMadalena do Pico (Açores)

“A ilha do Pico é um cone vulcânico que emerge de repente do oceano: não é mais do que uma alta montanha abrupta pousada sobre a água. Tem três aldeias: Madalena, São Roque e Lajes; o resto é rocha de lava, onde cresce de vez em quando um raquítico bacelo e alguns ananases silvestres. O pequeno ferry atraca no embarcadouro da Madalena, é domingo e muitas famílias deslocam-se entre ilhas mais próximas com cestos e trouxas. Das canastras saem ananases, bananas, garrafas de vinho, peixes. Nas Lajes há um pequeno museu das baleias e eu quero visitá-lo. Mas a camioneta hoje faz um horário reduzido porque é dia santo, e Lajes fica a uns quarenta quilómetros, na outra extremidade da ilha. Sento-me pacientemente num banco, sob uma palmeira, em frente da estranha igreja do largozinho. Tinha pensado tomar um banho, está um belo dia e a temperatura agradável. Mas no ferry puseram-me de sobreaviso porque perto do rochedo está uma baleia morta e o mar está cheio de tubarões.” (pp. 18-19)

LajesLajes do Pico (Açores)

“Após uma longa espera sob o calor do meridiano avisto um táxi que, depois de deixar um passageiro no portinho, se prepara para regressar. O taxista oferece-me gratuitamente uma boleia até às Lajes, porque já fez a viagem e regressa a casa; o preço que o passageiro pagara incluía também o regresso, e ele não quer o dinheiro que não lhe pertence. Nas Lajes há só dois táxis, diz-me com satisfação, o seu e o do seu primo. A única estrada do Pico estende-se ao longo do rochedo, com curvas e solavancos, sobranceira a um mar de espuma. É uma estrada estreita e desconexa que atravessa uma paisagem rochosa e triste, com raras casas isoladas. Desço no largo principal das Lajes, que é uma aldeia silenciosa dominada pela incongruência de um enorme convento setecentista e pela imponência do pilar de um padrão.” (p. 19)

vila das lajes 2 011Horta – ilha do Faial (Açores)

“Na Horta, no primeiro domingo de agosto, é a festa dos baleeiros. Alinham os seus barcos pintados de fresco na baía de Porto Pim, o sino toca brevemente um duplo som rouco, chega o padre e dá a bênção aos barcos. Depois organiza-se uma procissão que vai ao promontório que domina a baía, onde fica a Capela de Nossa Senhora da Guia. Atrás do padre vão as mulheres e as crianças, por fim os baleeiros, cada um com um arpão ao ombro. Vão muito circunspectos e vestidos de preto. Entram todos na capela para assistir à missa e deixam os arpões encostados ao muro externo, um a seguir ao outro, como noutras terras se encostam as bicicletas.” (pp. 30-31)

PicoLajes do Pico (Açores) – Observação de cetáceos – cachalote

“«Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus do Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.»” (Melville, Moby Dick, cap. XXXVII)

In A Mulher de Porto Pim de Antonio Tabucchi, p. 18

Uma baleia vê os homens

“Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece encontrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.

Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a Lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.” (pp. 53-54)

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