A Era dos Malditos – Ana Gonçalves (Alphabetum)

A Era dos Malditos - Ana GonçalvesA Era dos Malditos de Ana Gonçalves é o primeiro livro de uma trilogia que reflecte sobre a tomada de consciência dos cidadãos perante a perda de direitos instituídos numa lógica de Estado Social como garantia de funcionamento e estabilidade da sociedade.

Integrado no contexto das sucessivas manifestações organizadas internacionalmente e com impacto um pouco por todo o mundo graças às tecnologias de informação e comunicação, A Era dos Malditos apresenta-nos uma Lisboa que durante vinte e três dias se encontra em estado de sítio perante a incapacidade de o Estado garantir as necessidades da sociedade, assim como o estipulado na Constituição.

As descrições da capital e a (des)organização dos “malditos” (“desempregados, miseráveis, precários, enganados, distraídos, informados, pobres e remediados”) vão de encontro a algumas das descrições presentes na obra Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago ainda que fiquem muito aquém até porque algumas das descrições dão a sensação de se tratar de cenas de algumas séries norte-americanas que retratam situações de colapso social e político em eras pós-apocalípticas, embora num registo de trazer por casa.

As ideias apresentadas não deixam de ser interessantes em virtude da sua atualidade ainda que apresentadas de uma forma naïve, porém, desembocaram nos habituais lugares comuns não contribuindo com nada de novo, havendo mesmo alguns capítulos verdadeiramente desnecessários, não esquecendo que perante situações de desagregação de um Estado perante a força dos cidadãos, a dita “revolução dos malditos” apresentada no livro, afinal nada mais é do que um conjunto de motins que ocorre um pouco por toda a cidade de Lisboa e outras cidades do mundo que rapidamente cessam voltando a vida e a paz à normalidade.

Ao longo da obra nunca consegui associar os cidadãos revoltosos ao conceito de “malditos”, termo frequentemente utilizado pela autora. O leitor compreende a ideia, mas se procurarmos o conceito de maldito no dicionário, apenas “desprezado” é o sinónimo que lhe faz jus.

O livro acaba por “salvar-se” na medida em que a personagem principal, alter ego da autora, e também uma “maldita” acaba por concluir que findos os tumultos na cidade, mesmo perante uma tentativa de reorganizar a sociedade salvaguardando a democracia, continuarão a verificar-se interesses de ordem pessoal por parte de quem pretende governar que continuamente se irão sobrepor ao bem comum. A personagem principal termina com a ideia de que este não será definitivamente o caminho a seguir.

Excertos:

“- Porque é que achas que aconteceu tudo o que está a acontecer no mundo? (…)
– Porque roubaram o futuro às pessoas. Isso é o pior que se pode fazer a alguém.” (p. 34)

“A era dos malditos sempre existiu. Desde que o ser humano subjuga o ser humano. Desde os escravos, passando pelos servos, acabando nos trabalhadores explorados. A era dos malditos é indissociável do progresso da humanidade e é, paradoxalmente, contrária a esse progresso. Sempre existiram períodos em que esses malditos se insurgiram, a diferença é que hoje os malditos vivem num mundo globalizado, aproveitando para globalizar também a sua revolta. Não há dúvida de que os tempos mudaram e a situação melhorou. A subjugação atenuou-se, o conforto foi fazendo parte das nossas vidas, mas talvez tenha sido esse conforto que causou um adormecimento colectivo. O resultado está à vista: quando a multidão acordou, não gostou do mundo em que vivia e lutava agora para mudar esse mundo.” (p. 65)

“- O mundo está a viver a revolta que muitos de nós já sabíamos que um dia rebentaria. Percebemos e defendemos as razões que têm levado tantos às ruas. Mas entendemos também que a desordem só pode ser um passo inicial da revolta e que para que haja mudança também é preciso que haja ordem – uma nova ordem.” (p. 68)

“ – Há sempre interesses. Todos temos interesses. Infelizmente, é difícil combater a tentação de esquecermos o interesse coletivo para satisfazer os nossos interesses próprios. Mas estamos a tentar.” (p. 121)

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