“Um piano para cavalos altos” de Sandro William Junqueira

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Aviso: o texto seguinte reflecte uma opinião estritamente pessoal e totalmente enviesada pelos valores, crenças e condicionamentos educacionais da sua autora.

“Um piano para cavalos altos” foi, sem sombra de dúvida, um dos livros mais desconcertantes e surpreendentes que já li. Trazia consigo uma veemente recomendação pelo que já suspeitava que seria uma leitura muito interessante. No entanto, quando iniciei o livro não estava, de modo algum, preparada para a montanha-russa de impressões e emoções que esta história desencadeou. Mas vamos por partes: em primeiro lugar gostei da sua estrutura de pequenos textos reunidos em capítulos, característica importante para quem é obrigada a ler pouco a pouco, durante períodos curtos, por falta de tempo para dedicar a leituras prolongadas.

Em segundo lugar, as frases quase sempre curtas mas incisivas, bem  escritas, muitas vezes amargamente irónicas e isentas de metáforas-lugares-comuns lembram as pinceladas rápidas de um impressionista com pressa de acabar a sua obra. Pensei que isto fazia sentido quando decidi  ler uma parte do livro a ouvir as “Gymnopédies” de Satie.  Estas, tal como “Um piano para cavalos altos”, evocam imagens de sublime melancolia perturbadas por dissonâncias que nos inquietam e desassossegam, lembrando, aqui e ali, que  existir é mais luta do que passeio tranquilo, e que sobre nós recai a responsabilidade deste facto. Em grego “gymnos” significa nú e, ao descobrir isto, os títulos dos capítulos pareceram-me totalmente apropriados, pois aqui o lado negro da natureza humana é apresentado nú, despido de eufemismos e de modo frequentemente brutal.  E surge a pergunta: será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?

Em terceiro lugar, a construção de toda a história revela uma imaginação poderosa e invulgar, responsável pela criação de um mundo inóspito e violento onde não há inocentes, à excepção de uma criança, de um menino.

Em quarto lugar, o recurso a palavras mais vernaculares, embora não ostensivamente excessivo, desagradou-me como sempre acontece, pois cresci num meio onde tais termos, não  só não eram admissíveis, como o seu uso era mesmo penalizado. Nesse tempo e nesse local de infância e juventude até os rapazes se coibiam de usar tais palavras junto das raparigas, de modo que nunca consegui habituar-me ao seu uso, salvo em circunstâncias pontuais de grande irritação.

Em quinto lugar, felizmente este livro NÃO foi escrito ao abrigo da nova aberração ortográfica, perdão, acordo ortográfico. Muito obrigada, Sandro William Junqueira!

Em jeito de conclusão, este é um livro muito bem escrito e concebido, que conta a história de um mundo brutal mas soberbamente imaginado e passível de inquietar seriamente a consciência de quem se atrever a lê-lo. Atrevam-se, se faz favor!

“Lá fora os candeeiros prolongam o exercício nocturno: permanecem acesos. São 14:20. E a luz pobre da tarde está envolta numa atmosfera de cerco: a presença do Muro. Durante estes meses de Inverno os dias não são dias decididos mas sim, marionetas comandadas pelos fios das noites altas. Os dias são quase pretos. Parece que numa rasteira propositada o sol caiu de costas. As nuvens e o vento empurraram-no para trás do mundo e a neve tapou-lhe a boca.”

“É verdade…Eu sei…Educar o povo é processo difícil, demorado. As pessoas são estranhas e destoam. E pretender fazer caminhar toda esta gente numa única direcção mostra ingenuidade ou utopia. Aprendemos  isto com o Grande Desastre. Vocês sabem (pausa) este Governo começou do nada. Mas de um nada organizado e diferente; que parte das vísceras do homem; que compreende e aceita as naturais diferenças: biológicas, orgânicas e celulares. Como tal, as nossas políticas corajosas, excluem, diferenciam. É verdade. Mas não concordam que é estúpido e hipócrita pretender a igualdade? (…) Vocês sabem isto. Vocês sabem. (…) Das nossas ruas: pobres e mendigos, famintos e doentes, aleijados e loucos, o lixo e os cães vadios, vocês sabem, toda essa escumalha, foi varrida pela vassoura competente deste Governo e depositados lá bem longe! Bem para lá do Muro! Onde os seus gritos e fluidos não cheguem perto para contaminar a nossa equidade social e higiene política!”

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9 pensamentos sobre ““Um piano para cavalos altos” de Sandro William Junqueira

  1. Já tinha lido o artigo do Jorge, mas do teu li na diagonal, ainda vou no início. Procurava apenas uma confirmação para o tema e acção central do livro, já confirmei. De resto ando, assim a modos que perdida. Quando encontrar o caminho dentro do livro, questões se levantarão e aquando da minha opinião virei aqui espicaçar-me com a tua 😉

    • Cris, este não é um livro fácil. Aqui não há “zonas de conforto” para o leitor, nunca. Foi uma leitura de “murros no estômago” uns atrás dos outros e simultâneamente de reflexões em cadeia sobre a nossa natureza e as sociedades que criamos. Um livro diferente dentro do grande tema da literatura que é o ser humano em si mesmo. A sua originalidade agradou-me mesmo muito.

  2. e isentas de metáforas-lugares-comuns (aqui não consigo concordar!) lembram as pinceladas rápidas de um impressionista com pressa de acabar a sua obra – linda metáfora para este livro. Talvez seja isto que este livro , uma obra inacabada ou pelo menos a leitura, não inacabada, mas inacabada, com brechas para se voltar a uma releitura e reinterpretar tudo e mais alguma coisa, outra e outra vez!

    • Quando falo em isento de lugares-comuns refiro-me ao modo, a meu ver, original como o autor escreve sobre a natureza humana. Os lugares-comuns são assim inevitáveis na nossa existência e em tudo o que criamos pois a nossa essência mantém-se essencialmente igual ao que era desde o alvorecer do ser humano. Para mim, o que caracteriza um grande autor é a capacidade de recriar esta essência de forma original e esteticamente apelativa . Como diz Ferreira de Castro em “Os Fragmentos”: “Mas os lugares-comuns tornaram-se comuns justamente por exprimirem, em síntese, a essência das verdades.”
      Ainda andas a lutar com este livro?

  3. Pingback: “Um piano para cavalos altos”, de Sandro William Junqueira – Opinião | Roda dos Livros

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