O Revisor – Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora)

O Revisor - Ricardo Menéndez SalmónTudo acontece no fatídico 11 de março de 2004 em que Madrid sofre vários atentados terroristas protagonizados pela Al-Qaeda que vitimou cerca de 200 pessoas. Vladimir está em casa e vai-se dando conta da dimensão da tragédia que assolou a capital do seu país ficando deveras perturbado à semelhança dos seus concidadãos.

À medida que a comunicação social vai atualizando a informação sobre os ataques terroristas ao longo do dia, Vladimir vai reflectindo sobre o impacto desse dia na vida das pessoas que passa definitivamente a ser comandada pela desconfiança e pelo medo.

Sendo revisor de obras literárias, Vladimir vai questionando o sentido da vida e simultaneamente o sentido da História pondo em causa valores democraticamente aceites em oposição ao sentido redentor da literatura que deverá contribuir para a desmitificação de mentiras e abusos praticados por quem comanda os desígnios dos países que actualmente acabam por se tratar de forças invisíveis quase ocultas e que determinam, condicionam e subjugam as vidas das pessoas.

É neste sentido que a literatura deverá cumprir a sua função desocultando aquilo que de mais obscuro nos condiciona sendo dados os exemplos de Fiódor Dostoiévsky, Albert Camus e J. M. Coetzee que tinham a consciência da mentira que o Homem vive ao longo da sua vida e, assim, através das suas obras, contribuíram “para nos reconciliarmos com essa sombra e com esse intenso simulacro, para conciliarmos tudo o que sabemos com tudo o que podemos suportar saber, que existem coisas como a literatura”. (p. 92)

Com a publicação de O Revisor, ficou concluída a “Trilogia do Mal” iniciado com A Ofensa e Derrocada colocando Ricardo Menéndez Salmón numa das referências da literatura espanhola contemporânea.

Excertos:

“Ninguém, desde que existem ágoras, mentiu tanto como os políticos. Quando, entre os gregos, um político mentia, impunha-se-lhe uma condenação vergonhosa: o ostracismo. Hoje, no pior dos casos, dá-se-lhe um mandato, oferece-lhe uma autarquia ou adjudica-se-lhe um ministério. É o código não escrito da nossa meritocracia: mente e serás recompensado.” (p. 46)

Ricardo Menéndez Salmón

“Para mim, o Paraíso inclui uma biblioteca sem cercas de arame farpado nem armadilhas visíveis, um ventre de baleia para onde algum acaso caridoso me atirou para a eternidade. Tudo é pó, desejo e silêncio, e uma luz crua, zenital (…). E o cheiro…

Porque o cheiro do livro é a quinta-essência de todos os cheiros, a geografia do herói, o trópico da quietude e dos bosques frondosos. Qualquer livro é passagem. Quando abro um volume e aspiro as suas páginas, já não estou ali. Muita gente não consegue entender que Tucídides cheire a aurora das ilhas gregas, mas é assim.” (p. 58)

“- Não interessa o que te disse. Esquece isso – respondi, pensando que foi o horror ao vento que Netchaev destilou no coração de alguns homens fanáticos o que levou Fiódor Dostoiévsky a escrever Demónios, um romance extraordinariamente sombrio, embora também extraordinariamente luminoso, uma obra de arte que ainda hoje, após inúmeras matanças do século XX e os terríveis presságios que se desenham nos alvores do século XXI, continua a inquietar os seus leitores. – Num dia como o de hoje, com as coisas que aconteceram e com as que vão acontecer, é melhor não pensar muito, de modo que limita-te a respirar, a alimentar-te e a dar uma ajuda, se alguém te pedir.” (pp. 60-61)

“Também eu tinha desesperado anteriormente. Também eu tinha sucumbido à inércia do fim dos tempos. Também eu tinha pensado que a Física já não contava. Que a Filosofia já não contava. Que a Arte já não contava. Que a beleza já não contava. Que todas as disciplinas tinham morrido. Que só restava o que ditavam as grandes multinacionais, um punhado de notícias concertadas diariamente entre governos e organizações ocultas, cegas para o olho do homem vulgar, que mexiam os cordelinhos e dirigiam o mundo, as coisas que tinham realmente importância: a Bolsa, os poços de petróleo, a corrida espacial. O resto era secundário; podiam desaparecer partes inteiras da realidade e não aconteceria nada. Não era óbvio? A Literatura. A quem podia preocupar? Quem precisava dos livros para viver?” (p. 104)

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3 pensamentos sobre “O Revisor – Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora)

  1. Desmistificação das mentiras e abusos praticados por quem exerce o poder… o tema daria para um tratado! E, pelos excertos que transcreveste, parece-me que não estará nada mal aproveitado!

  2. Gostei bastante desta tua opinião e como já te tinha dito, tenho muita curiosidade neste autor, sobretudo nesta trilogia que é composta por este “revisor” mas também por: “A Ofensa” e “derrocada”. É um autor que quero ler em breve e que tenho andado a adiar.

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