Ainda Alice – Lisa Genova

2

A história de Alice é hoje, infelizmente, cada vez mais comum: alguém que toma como certas as suas capacidades intelectuais, aliás acima da média, depara-se de súbito com um diagnóstico de Doença de Alzheimer. O caso aqui relatado tem a particularidade de constituir uma manifestação precoce da doença – Alice tem apenas 50 anos – e, por isso, conta com a agravante de apanhar a doente em plena vida activa. Esse facto torna a catástrofe ainda mais evidente aos olhos de quem lê, embora, mesmo em doentes já reformados, não seja difícil compreender a devastação que a perda gradual de faculdades necessariamente causa.

Este livro faz-nos acompanhar essa mesma devastação passo a passo: desde as primeiras falhas de memória ao choque terrível do diagnóstico, passando depois, meticulosamente, por todos os momentos críticos do lento definhar de um cérebro e descrevendo com lucidez a forma como a doente os vive e como quem a rodeia os encara. Assistimos com horror à crueldade de uma doença que obriga uma pessoa habituada a ser respeitada pela sua inteligência a aperceber-se da condescendência e até piedade com que, cada vez mais, passa a ser tratada. Sentimos o embaraço de Alice quando detecta os seus próprios lapsos e ficamos embaraçados por ela quando a vemos colocar-se, mesmo inconscientemente, em situações constrangedoras. Identificamos o padrão circular de pensamento, em que umas ideias levam a outras até que o processo mental bloqueia e regressa automaticamente à primeira ideia, percorrendo logo a seguir exactamente o mesmo percurso até se imobilizar no mesmo local, e recomeçando o mesmo ciclo interminavelmente, sem que a doente se aperceba da repetição. Percebemos a prisão que estas limitações representam e a impossibilidade de Alice as ultrapassar. Reconhecemos as famosas fases de suposta melhoria, em que a doença parece adormecida, parecendo esperar apenas o nascimento de alguma esperança para retomar a sua progressão inelutável. Testemunhamos a insidiosa perda das referências que constituem uma personalidade e compreendemos a confusão de Alice ao não se reconhecer a si própria nem ao contexto em que se move. Finalmente, vemos Alice perder a consciência do seu estado e mergulhar num limbo paralelo ao mundo real, mais clemente nalguns aspectos, porque desapareceram a vergonha, a raiva e o medo, mas mais violento noutros, que a Autora não chega a relatar, mas que sabemos que se seguirão – a perda total da comunicação, da alimentação, da locomoção, etc.

Em Ainda Alice nenhum dilema moral nos é poupado. Somos confrontados com as duras escolhas impostas à família, que, além de ter de assistir ao lento desaparecimento de uma pessoa que amam, tem ainda de decidir do que abrir mão e do que não prescindir, sabendo que, por um lado, tem pouco tempo para aproveitar a companhia de alguém que não quer perder, mas, por outro, chegará inevitavelmente o momento (dentro de um dia, um mês, um ano ou vários anos) em que todas as renúncias feitas serão totalmente irrelevantes.

E está-nos ainda reservado o dilema supremo: a questão do fim da vida. Enquanto ainda na posse das suas faculdades, e consciente do que lhe irá irremediavelmente acontecer, Alice decide que não quer viver para lá de um determinado ponto. No entanto, sabe que não pode confiar nas suas capacidades para dar esse passo. E também sabe que não pode pedi-lo à família. Alice está pior do que sozinha, pois dentro de pouco tempo nem consigo própria poderá contar. Tenta tomar providências, deixando instruções para guiar, passo a passo, o ser demente em que se irá transformar na realização dessa tarefa. Em determinado ponto do seu caminho descendente, chega mesmo a ter oportunidade de concretizar esse seu intento. Mas a vida interpõe-se. A dureza deste livro chega ao ponto de nos retirar todas as redes protectoras que criáramos na nossa mente como garantias de que este destino nunca seria o nosso. No nosso íntimo, todos pensamos vagamente que, em caso de absoluto desespero, como uma doença incurável e mortal, poderemos sempre decidir quando fazer uma retirada elegante. Mas esquecemo-nos que isso implicaria que, em algum momento, decidíssemos que o fim seria ali, e não tardaria nem mais um minuto. Acontece que, nessas ocasiões, a vida teima em relembrar-nos de que ainda ali está. Há-de haver sempre um céu azul que vamos deixar de ver. Uma noite quente que já não presenciaremos. Um cheiro a relva molhada, o calor do sol na pele, um nunca acabar de sensações que nunca mais experimentaremos. E, nessa altura, vamos deixar para amanhã. Porque ainda é cedo. Ainda há tempo para mais um pôr-do-sol. E depois já será tarde demais.

Excertos:

“- Alice, isto faz sentido para si? – perguntou Stephanie.

Embora a pergunta fosse legítima, dado o contexto, Alice ficou ressentida e vislumbrou nela o que estaria subjacente a todas as suas conversas no futuro. Estaria competente o suficiente para compreender o que lhe estava a ser dito? Estaria o seu cérebro demasiado danificado, estaria demasiado confusa para consentir nisto? Ela sempre fora tratada com grande respeito. Se a sua capacidade mental fosse gradualmente substituída por doença mental, o que substituiria esse grande respeito? Piedade? Condescendência? Embaraço?” (pág. 95).

“Pensou no que acabava de ver no Centro de Repouso de Mount Auburn Manor enquanto lambia e caminhava. Precisava de um plano melhor, um plano que não custasse a John uma fortuna para manter viva e em segurança uma mulher que já não o reconhecia e que, naquilo que era mais importante, ele também não reconhecia. Ela não queria ficar aqui quando chegasse ao ponto em que os fardos, tanto emocionais como financeiros, ultrapassavam em muito os benefícios de continuar viva.” (pág. 129).

“Os meus ontens estão a desaparecer e os meus amanhãs são incertos, então o que tenho para viver? Vivo para cada dia. Vivo no momento. Um destes amanhãs, em breve, esquecer-me-ei de que estive aqui perante vós a fazer este discurso. Mas, lá porque o esquecerei amanhã, isso não significa que não tenha vivido cada segundo dele hoje. Esquecerei o dia de hoje, mas isso não quer dizer que hoje não tenha tido importância.

Já não sou convidada para dar palestras em universidades e conferências de Linguagem e Psicologia em todo o mundo. Mas aqui estou, hoje, a fazer aquela que espero que seja a palestra mais influente da minha vida. E eu tenho Doença de Alzheimer.

Obrigada.” (pag. 276).

“Enquanto Alice caminhava com a mulher entre as crianças médias, a música foi diminuindo atrás delas. Alice não queria ir-se embora, mas a mulher estava a ir e Alice sabia que devia ficar com ela. A mulher era alegre e simpática e sabia sempre o que fazer, algo que Alice apreciava porque muitas vezes ela não sabia.

Depois de caminharem durante algum tempo, Alice viu o carro vermelho-palhaço e o grande carro cor de verniz parados à entrada.

– Estão ambas em casa – disse a mulher, ao ver os carros.

Alice sentiu-se entusiasmada e apressou-se a entrar em casa. A que era mãe estava no corredor.

– A minha reunião acabou mais depressa do que eu pensava, por isso já cá estou. Obrigada por ter ficado com ela – disse a mãe.

– Não há problema. Tirei a roupa da cama dela mas não tive tempo para a voltar a fazer. Ainda está tudo na máquina de secar – disse a mulher.

– Está bem, obrigada, eu trato disso.

– Ela teve outro dia bom.

– Nada de deambulações?

– Não. Agora é como a minha sombra. A minha parceira no crime, não é, Alice?

A mulher sorriu e acenou entusiasticamente. Alice sorriu e acenou também. Não fazia ideia daquilo com que estava a concordar, mas provavelmente estava bem para ela, se a mulher achava que sim.” (págs. 312 e 313).

Anúncios

6 pensamentos sobre “Ainda Alice – Lisa Genova

  1. O teu texto comoveu-me muito. Para além de estar muito bem escrito, dá-nos um vislumbre da terrível realidade das doenças neurodegenerativas crónicas que tanto sofrimento impõem, quer aos pacientes, quer às respectivas famílias.

  2. É verdade, Renata, são casos dramáticos. Este livro pareceu-me uma tentativa séria e honesta de chamar a atenção para o problema.

  3. Tal como já tinha dito à Márcia vou entrar em lista de espera para ler este livro. Não vai ser fácil para mim pois vivi de perto a realidade de um alzheimer precoce e é um tema que me é caro.
    Considero importante falar, discutir, conhecer esta doença, desmistificar algumas situações. Do que li nas vossas opiniões e do que ouvi no encontro da Roda dos Livros este parece-me ser um testemunho (mesmo que não verídico) interessante e importante.
    Não sei se alguma vez vou conseguir escrever (ou mesmo falar a sério) sobre este livro mas quero muito lê-lo.

  4. Levo o livro no próximo encontro. Gostei muito de o ler e aconselho. Também eu conheço de perto esta doença (embora não na forma precoce) e, por isso mesmo, achei a abordagem feita pelo livro muito clara e, acima de tudo, respeitadora da individualidade do doente e dos dilemas com que se confronta nas fases iniciais. É um livro muito humano.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s