Os Sete Loucos – Roberto Arlt (Cavalo de Ferro)

Os Sete LoucosOs Sete Loucos é a obra mais importante do argentino Roberto Arlt publicada em 1929 e não menos revolucionária, perversa e subversiva tendo em conta as propostas como forma de reorganização social, económica e política.

O herói desta obra, Erdosan, tem vinte e quatro horas para restituir uma determinada quantia à empresa para a qual trabalha sendo este o mote para conhecer vários personagens marginais do submundo de Buenos Aires acabando por ser envolvido no projecto da criação de uma Sociedade Secreta que substituirá o modelo vigente de então.

Já então os idealismos estavam em crise, nomeadamente o capitalismo, comunismo e cristianismo que já não respondiam às necessidades da sociedade havendo a necessidade em voltar a acreditar num deus, sendo, pois, a descrença o grande problema da sociedade de então.

É neste contexto de descrença que se deverá constituir a Sociedade Secreta liderada por uma minoria que inventará uma nova religião que nada tem que ver com as religiões reveladas ainda que funcionem enquanto tal na medida em que a religião será baseada numa nova mentira muito bem contada envolvendo todos os cidadãos que passarão a acreditar novamente num deus.

A minoria detém o poder e a ciência como formas de reorganização e controlo da sociedade criando milagres apócrifos para esta mediante a tendência do momento. Só desta forma será possível levar a cabo uma revolução social em virtude da necessidade de voltar a acreditar em algo que preencha e ocupe o lugar do vazio permanente ainda que essa crença nada mais seja algo fabricado e conduzido pela minoria que tudo passará a controlar.

Essa minoria serão os dotados de inspiração porque têm a imaginação de criar a nova crença sendo por essa mesma razão os “super homens” que estão acima de quaisquer regras morais criando então aquilo a que chamarão “Monstro Inocente”.

É neste contexto que Erdosan, o herói de Os Sete Loucos se move, articulando-se com personagens peculiares e perversos como o Astrólogo, o grande mentor da Sociedade Secreta, o Rufia Melancólico, o chulo de um prostíbulo, Gregorio Barsut, o primo da mulher a quem vão extorquir dinheiro para financiar o projecto, Hipólita, a futura prostituta, entre outros marginais de Buenos Aires.

Não deixa de ser curioso que Os Sete Loucos foi publicada em 1929, ano em que ocorreu o Crash da Bolsa de Nova Iorque arrastando o resto do Mundo para a Grande Depressão vivida nos anos 30 e que serviu de motor para o aparecimento das ditaduras culminando uma década mais tarde com a eclosão da 2ª Guerra Mundial. Depois da guerra o Mundo ficou condicionado com a política de blocos (EUA versus URSS) e em 1989 foi derrubado o Muro de Berlim.

Atualmente vivemos confrontados com a necessidade de organizar o espaço europeu através de uma EU que condiciona cada vez mais as políticas de cada país individualmente, o que compromete seriamente a vida dos cidadãos do velho continente.

Excertos:

“Os homens só são sacudidos com mentiras. É o que dá ao falso a consciência do certo, pessoas que nunca teriam caminhado para atingir fosse o que fosse, tipos desfeitos por todas as desilusões, ressuscitam na verdade das suas mentiras. (…) Não há homem que não admita as pequenas e estúpidas mentiras que regem o funcionamento da nossa sociedade.” (p. 159)

roberto-arlt

“- Sabe? Muitos de nós trazem em si um super homem. O super homem é a vontade no seu rendimento máximo, sobrepondo-se a todas as normas morais e executando os atos mais terríveis, como uma espécie de alegria ingénua… algo como o inocente jogo da crueldade.

– Sim e já não sentimos medo nem angústia, é como se andássemos nas nuvens.

– Claro, o ideal seria despertar em muitos homens esta ferocidade jovial e ingénua. Compete-nos inaugurar a era do Monstro Inocente. Tudo se fará, sem dúvida alguma. É uma questão de tempo e de audácia, mas quando se derem conta de que o seu espírito se afunda na latrina desta civilização, antes de se afogarem vão arrepiar caminho. O que acontece é que o homem não reparou que está doente de cobardia e de cristianismo.

– Mas, você não queria cristianizar a humanidade?

– Não, já agora… mas se esse projecto fracassar, tomaremos o caminho inverso. Nós ainda não definimos qualquer princípio e o mais prático será adotar os mais opostos. Tal como numa farmácia, teremos as mentiras perfeitas e diversas, rotuladas para as mais fantásticas doenças do entendimento e da alma.

– Sabe que você me parece o louco da fábrica, como dizia ontem a Barsut?

– Aquilo a que chamamos loucura é a falta de hábito do pensamento dos outros. Repare, se esse carregador lhe confessasse as ideias que lhe passam pela cabeça, você fechava-o num manicómio. Naturalmente, como nós haverá poucos… o essencial é que dos nossos retiremos vitalidade e energia. Aí está a salvação.

(…)

– E a cidade será nossa (…) e seremos como deuses (…). Sabe que um dia seremos como deuses?

– É que as bestas não compreendem. Os deuses foram assassinados. Mas o dia virá em que sob o céu correrão pelos caminhos, gritando: «Amamos a Deus, precisamos de Deus». Que bárbaros! Eu não consigo perceber como é que puderam assassinar Deus. Mas nós vamos ressuscitá-lo… inventaremos uns belos deuses… supercivilizados… e que diferente será a vida!

– E se tudo fracassar?

– Não importa… virá outro… virá outro que me substituirá. Assim tem de suceder. A única coisa que devemos desejar é que a ideia germine nas imaginações… no dia em que estiver em muitas almas, sucederão coisas belas.” (pp. 250-251)

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