Na Ilha Blåmandsøy – Knut Hamsun (Prémio Nobel de Literatura 1920)

Knut Hamsun - Na Ilha Blåmandsøy

É sabido que quem lê a intemporal Fome (1890) de Knut Hamsun fica para sempre agarrado à escrita deste escritor norueguês necessitando de mais e mais obras como de pão para a boca ou de ar para respirar.

Sem que nada o previsse, ao fazer uma pesquisa numa biblioteca municipal descobri que em 1998 aquando da realização do grande evento Expo’98, foi publicada a coleção “98 Mares” com pequenas obras nacionais e internacionais sendo que uma delas é o conto Na Ilha Blåmandsøy de Knut Hamsun que integra o livro de contos “Stridende Liv” publicado em 1905.

À semelhança dos seus romances, Knut Hamsun escreve sobre a paisagem e o modo como a mesma molda os homens e as mulheres assim como a relação entre eles utilizando para o efeito uma linguagem tão atual como se o texto tivesse sido escrito há pouco tempo ainda que estejamos a falar de um texto com mais de um século.

Nas pequenas ilhas os poucos habitantes procuram conciliar as várias facetas do clima com aquilo que se pode retirar de cada pedaço de terra. A vida dura das ilhas  provocada pela insularidade, assim como pela necessidade de sobreviver à natureza quase implacável, torna cada pedaço de terra num microcosmos social e económico que dependendo do número de habitantes poderá ter “igreja e autoridade” e à medida que os anos iam passando os sinais do progresso também se fazia sentir com a introdução do “correio e telégrafo”.

Mas o conto Na Ilha Blåmandsøy conta-nos também das difíceis e complexas relações que se estabelecem entre os habitantes das pequenas ilhas que neste caso especificamente se centram no trio amoroso que ligava a jovem Fredrikke aos rapazes Simon e Marcelius que ocupavam estatuto social pelas profissões que desempenhavam, professor e construtor de barcos, respetivamente. Fredrikke nunca é muito clara ou mesmo honesta com Marcelius acalentando neste algumas/muitas esperanças no sentido de que o trio sofresse um volte-face.

Como em todas as pequenas ilhas, tudo o que se sente e tudo o que acontece tem um impacto diferente na forma como as pessoas encaram a realidade e se uma pequena alegria poderá traduzir-se no alcançar da plena felicidade, um triste acontecimento ou uma insatisfação poderá desencadear ódios, desejo de vingança e culminar numa tragédia.

Knut Hamsum em Na Ilha Blåmandsøy explora como as relações humanas poderão ser um reflexo da própria natureza envolvente, da mesma forma que nos mostra que o ser humano pode ser escravo dos seus sentimentos e desejos mais obscuros tornando-se na criatura mais solitária de uma pequena ilha, tornando-se também ele uma ilha perdida na imensidão do oceano. Definitivamente mais um grande conto a não perder deste escritor norueguês que é considerado um dos maiores autores da literatura mundial contemporânea tendo sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1920.

Excertos:

22 Knut Hamsun

“De entre as aldeias piscatórias da orla costeira, muitas são ilhas e há uma pequena, chamada Blåmandsøy, que não chega a ter cem pessoas. Porém, a ilha vizinha é bastante maior, podendo perfeitamente ali haver trezentas ou quatrocentas e nela existe igreja e autoridade. Chama-se Kirkeøya. Depois da minha infância, Kirkeøya passou também a ter correio e telégrafo.

Onde quer que os ilhéus se reunissem, era sempre melhor ser-se da ilha grande. Sim, mesmo os continentais não eram muito considerados pelas gentes de Kirkeøya, embora fossem oriundos do continente.

Todo o oceano Atlântico batia na ilha Blåmandsøy, tão longe no mar alto estava situada. Era toda escarpada e impossível de escalar em três vertentes. Apenas a sul, na direção do sol do meio-dia, Deus e as pessoas tinham feito uma vereda transitável montanha acima. Existe aí uma escada com duzentos degraus. Após cada tempestade no mar, madeiros, tábuas e destroços flutuam em direção à ilha, e é com estes escombros que os carpinteiros navais constroem as suas embarcações. Transportam as tábuas ao longo dos duzentos degraus, carpinteiram os barcos junto às suas cabanas e esperam pelo inverno, quando a montanha na vertente norte se torna azul e brilhante pelo gelo, fazendo então descer os barcos por amarras e talhas, glaciar de vidro abaixo, lançando-os à água. Durante a minha infância, eu próprio vi como o faziam: dois homens permaneciam no topo da montanha dando folga às amarras e um homem ficava sentado no barco, afastando-o de onde este se poderia prender. E conseguiam-no, com coragem, cuidado e gritos serenos ao longo de todo o trajeto. Quando o barco por fim chegava ao mar, o homem gritava para cima, para os outros dois: «Esperem um pouco, agora está firme. Basta! Mais não dizia sobre esta grande façanha, a de o barco felizmente ter chegado lá abaixo.”

In Na Ilha Blåmandsøy de Knut Hamsun, pp. 7-9

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