A vida em surdina – David Lodge

A vida em surdina

Este romance despertou-me a atenção durante o nosso encontro na Roda dos Livros. Nada sabia mas fiquei intrigada e na expectativa de o ler. Agora não posso deixar de compartilhar as boas opiniões sobre a estória de Desmond Bates e a sua perspectiva da vida em surdina.

“(…) uma espécie de diário, ou notas para uma autobiografia, ou porventura uma simples terapia ocupacional.” (pag.49),  que Desmond Bates iniciou em 1 de Novembro de 2006 até 8 de Março de 2007 em que escrevia sobre tudo o que de mais relevante lhe acontecia e onde a privação da audição lhe deixou sensações e percepções distintas na relação com os outros e na gestão corrente da sua vida. Esta característica humaniza a personagem e o seu acutilante sentido critico dá-lhe uma dimensão trágico-cómica em que todos são visados, incluindo ele próprio.  

Inserido numa família alargada com um segundo casamento temos várias personagens mas duas destacam-se – o pai e Fred, a mulher. Personalidades diferenciadas que o autor bem caracteriza como antagónicas. Enquanto o pai, mais emocional e menos racional com a degradação física e mental, resultado da avançada idade, Fred, mais racional e menos emocional com a certeza das suas convicções e no auge das suas forças. E ainda uma contraditória e perturbada personagem fora da teia familiar – Alex Loom,  e sua tese de doutoramento sobre bilhetes de suicídio. Todo um cenário ora arrepiante, ora hilariante na conjugação de afectos.

Romance equilibrado e profundo, maduro até, provoca variadíssimas emoções numa escrita ritmada e ponderada. Surpreendentemente bem contado para quem como eu nada lera do autor. 

“Já se disse vezes de sobra que não há palavras adequadas para exprimir o horror do que aconteceu em Auschwitz e noutros campos de extermínio, cujos vestígios os nazis em retirada apagaram com mais cuidado.  Também não há pensamentos adequados, nem respostas emocionais adequadas, para o visitante que na vida nunca passou por nada de minimamente comparável aquilo. Sente-se compaixão como é óbvio, e mágoa, e raiva, mas esses sentimentos parecem tão supérfluos perante a imensidão do sofrimento que este lugar evoca, como lágrimas vertidas num oceano. “ (pag.293)

Sinopse:

Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.

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3 pensamentos sobre “A vida em surdina – David Lodge

  1. Estou cada vez mais curiosa em relação a este livro, especialmente depois de ter ouvido a Tânia Ganho falar sobre os problemas de tradução com que se deparou. Vai continuar na roda? Gostava de ler…

  2. Continua a rodar enquanto houver interessados Sónia! Se tudo correr como previsto poderemos falar com a Tânia sobre esta tradução.

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