Os Excluídos – Elfriede Jelinek

os excluídos

Quatro adolescentes, amigos improváveis. Em comum, a insatisfação com a vida que levam, o afastamento dos pais e a vontade de serem anarquistas. Um operário, que ambiciona ter acesso ao liceu para ser alguém na vida e em vez disso trabalha em electricidade, cuja mãe aproveita todas as oportunidades para lhe lembrar os ideais de luta de classes do falecido pai; dois gémeos de classe média-baixa (falida), com pretensões a intelectuais e sérios problemas psicológicos, ela afundando-se cada vez mais numa amargura ressentida, ele esforçando-se por parecer um líder e talentoso escritor, pensando assim disfarçar o seu desmesurado complexo de inferioridade; uma filha-família de classe média-alta ou mesmo alta (rica), cercada de tudo o que os outros cobiçam e ela própria cobiçada por eles, mas descontente e ansiosa por cometer crimes para “testar os seus limites”. Juntam-se para executar um projecto comum – cometer os tais crimes que, supostamente, os libertarão – mas permanecem sempre isolados, cada um a braços com as suas próprias frustrações, e as suas tentativas de explicação do mundo soam sempre a falso, por vezes contradizendo-se mesmo explicitamente, talvez porque eles próprios são uma fraude: não passam de uma construção precária, sem estrutura nem alicerces, uma fachada erguida à pressa para mascarar, perante o mundo, a miséria de um vazio interior onde apenas ressoam ecos de fúria, vergonha, nojo e de uma depressão omnipresente que tudo contagia. O final horroriza não tanto pela brutalidade, mas pela frieza, pela ausência total de emoção que acompanha essa brutalidade, e é descrito num pormenor cirúrgico, como se se tratasse do resultado de uma experiência científica no campo da patologia psicológica. A equação que vínhamos a adivinhar desde o início surge então com uma clareza arrepiante: “ser humano – laços afectivos = ser desumano”. Quaisquer que sejam as restantes variáveis.

Vencedora do Prémio Nobel em 2004, a Autora pega neste tema sem qualquer pejo em abalar convenções e conveniências. A sua escrita é dura, muitas vezes brutal, e não se deixa deter por respeito a eventuais sensibilidades nem aos limites do pretenso “bom-gosto”. Está a descrever situações desagradáveis e fá-lo sem qualquer intenção de as amenizar. Em vez disso, limita-se a descrever e a relatar, sem qualquer eufemismo ou embelezamento, mas com uma linguagem precisa e um discurso bem estruturado. Um comentário do The Scotsman na badana do livro informa-nos que a Autora possuiu as personagens com o seu “espírito demoníaco”. Um outro, da Lire, diz-nos que lhes “despejou ácido em cima”. Eu não iria tão longe: a meu ver, somos nós, leitores, que não estamos preparados para a total honestidade deste livro. Habituámo-nos a que todas as situações mais desconfortáveis sejam tratadas com palavras poéticas, insinuações e segundos sentidos para poupar a nossa sensibilidade, e a exposição sem máscaras da feia realidade provoca-nos, a princípio, algum choque. Mas esse choque não tarda a ser substituído pela admiração que a coragem de dizer a verdade sempre suscita.

Excertos:

“Anna despreza em primeiro lugar pessoas com casa própria, carros e família e, em segundo lugar, todas as restantes. Ela está permanentemente prestes a explodir de fúria. Um lago totalmente vermelho. O lago está cheio de um mutismo que argumenta permanentemente contra ela. Anna é o oposto das raparigas que usam permanente ou rabo-de-cavalo e, numa loja de discos, escutam a melodia de um êxito, acompanhando o seu ritmo fogoso com o pé. Todos, à excepção de ela própria, se encontram numa superfície de gelo, lisa e sem limites, e Anna afasta-os de si dando-lhes alternadamente pontapés e empurrões até que passem a berma sem limites, que não se pode ver, mas que se espera que exista, para que todos possam ser varridos para dentro da água gélida e mortífera. O que ela fala com o irmão tem cariz filosófico ou literário, a conversa que mantém consigo mesma é a linguagem dos sons que o piano emite.” (pág. 15).

“Ela quer estar sozinha num belo carro e não com muita gente, e muito menos com a família, num eléctrico de merda, em que todos são iguais e, por isso, ninguém pode representar nada de especial. Num Mercedes ninguém podia vir perguntar como é que o menino ou a menina se chamam. Nem fazer-nos festas na cabeça com mãos que se vê que só podem pertencer à espécie dos operários. E nem notarem que a criança a que fazem festas já traz no coração o veneno do individualismo. Preparada para derramá-lo.” (págs. 38 e 39).

“Sem dúvida que o anarquismo é para ser visto, mas ele é suficiente se uma pessoa o aplicar a si própria. É isso que liberta. Não se deve querer alcançar nada com isso, muito menos para um grupo de pessoas, sejam elas quem forem.

Sade diz que é preciso cometer crimes. Usa-se a palavra crime a este propósito para seguir o consenso geral, mas entre nós nunca designaríamos assim um dos nossos actos (Anna). Nós precisamos da norma válida na consensualidade para nos excitarmos com a nossa própria desmesura. Somos monstruosos, ainda que tenhamos o aspecto de burgueses como camuflagem. Somos filhos de burgueses mas não ficámos por aí. No íntimo estamos corroídos de más acções, no exterior somos alunos do liceu.” (págs. 44-45).

“Quando se diz alguma coisa que não agrada a Rainer, ou mesmo se não for esse o caso, ele levanta-se bruscamente e põe-se a um canto com ar pensativo, de olhar fixo e sombrio, até que Sophie ou Anna o vão buscar solenemente. O que é que tu tens? Diz lá, por favor, por favor. Vocês enervam-me, suas parvas. Tenho outras preocupações, que se situam num outro nível, no qual eu também me situo. Vocês aborrecem-me. Por favor, por favor, Rainer, vem sentar-te de novo connosco. Vocês não percebem realmente nada de nada, com pessoas assim não se pode passar à acção, tudo as assusta e as faz recuar, porque representam a mediocridade cobarde. Rainer quer que os outros sujem as mãos por ele, para que as suas possam ficar limpas. Os outros devem agir para ele, Rainer vai manter-se de fora, mas lançará os outros na acção. Mas vai querer a sua parte do dinheiro, que lhe faz falta para comprar livros. Ele pensa que será uma aranha na retaguarda da sua teia, mas agirá sem a teia das pequenas seguranças burguesas, aliás, ele vai retirá-la debaixo dos traseiros dos outros, para que eles, desamparados, lhe caiam nas mãos.” (págs. 88-89).

“A mãe diz, se o teu falecido pai soubesse, ele, que se sacrificou pela nossa causa.

Ele não se sacrificou, mataram-no. Caso contrário, ainda estava vivo. O que é que ele lucrou com isso? De certeza que eu não vou sacrificar-me. Quando leio os livros do Rainer acerca da dor, isso é mais autêntico do que quando penso na dor do meu pai na rampa da morte em Mauthausen.

(…)

Quando olho para ti, parece-me que talvez tenha vivido em vão e que talvez o teu pai tenha morrido em vão. Mas quando olho para os dois camaradas que aqui estiveram há pouco, sei que isso afinal teve um sentido que o meu próprio filho não é capaz de me dar.

De qualquer modo, a morte é sempre gratuita, mas paga-se com a vida, responde Hans a rir.

Os estranhos por princípio não lhe interessam, porque só se interessa por si próprio e por Sophie.

Vê se comes, talvez regressem os tempos mais duros, exorta-o a comer o pão com margarina que ele tinha desdenhado. Mas o Hans acredita num futuro melhor e não o come.” (pág. 147).

“Ao pequeno-almoço, a Anna recrimina a mãe por lhe ter destruído a vida, e Rainer profetiza ao pai que ele, Rainer, ainda há-de destruir pessoalmente a vida dele, pai.” (pág. 167).

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3 pensamentos sobre “Os Excluídos – Elfriede Jelinek

  1. Gostei bastante do texto que serve de “aperitivo” para a leitura cujo livro recebi na terça feira. Também me emprestaram “A Pianista” da mesma autora. Haja é tempo para ler o que queremos e tudo o mais que nos sugerem 🙂

  2. Tenho a certeza de que vais gostar, Jorge. A Pianista também deve ser muito bom! Márcia, eu também não conhecia a autora e adorei.

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