“Contracorpo” de Patrícia Reis

Uma mãe. Um filho adolescente. Uma enorme perda. Uma guerrilha entre um corpo revestido por uma armadura de resiliência e um “contracorpo” que se esconde atrás de uma inexpugnável muralha de silêncio.

Uma mulher em busca de equilíbrio e de uma nova definição de si mesma e um rapaz a transformar-se num homem, um “quase-homem” na corda bamba da adolescência, um malabarista de raivas, medos e sonhos.

Uma viagem aparentemente sem destino que os conduz ao encontro de si mesmos e um do outro.

Neste romance tudo flui de forma escorreita, ritmada, sensível e impressionantemente verosímil. Muito bem escrito, não é uma história sobre gente invulgar e extraordinária mas sim acerca de pessoas comuns, com qualidades e defeitos iguais aos de toda a gente, cujas vidas foram moldadas indelevelmente por uma perda inesperada.  A autora disseca com uma notável e sensível precisão a montanha-russa emocional vivida por Maria e pelos seus filhos, proporcionando ao leitor uma visão nítida e muito lúcida do seu percurso após a morte de Francisco. Gostei da profundidade que a autora deu às personagens, do tom intimista da sua escrita que as transporta para o mundo real ; Maria, Pedro, Simão e os outros pareciam estar mesmo ali ao nosso lado. A sua família poderia muito bem ser a nossa ou a de algum vizinho.

Em suma: bem escrito, simultâneamente sensível e realista, “Contracorpo” é uma leitura interessante e acutilante sobre o grande tema humano da perda, mediada tanto pela morte quanto pela passagem da infância à adolescência e , consequentemente ao mundo dos adultos.

” Optou por ficar calada. Ficar calada é muitas vezes uma forma de estar. Maria aprendeu a valorizar esse não compromisso com as palavras. A excepção é feita com o filho mais novo que adora histórias de piratas e coisas misteriosas. Robôs e homens do espaço, lagartos com capacidades especiais, poderes e magia. Tudo cabe na gaveta da imaginação e Maria diverte-se com as brincadeiras. Pode deixar de pensar. O cérebro fica dentro da caixa de legos gigantes, sim, porque esses já não precisos, são para meninos mais pequenos.”

” Sim, tenho saudades do pai. Não é suposto dizer. Ou melhor, tenho consciência de que não serve de muito, não produz nada em concreto e não resolve nada.”

” A psicóloga da escola também me chamara quando começaram os problemas maiores. A senhora queria saber se eu achava que tudo se prendia com o facto de ter perdido o pai. Foi exactamente assim que a psicóloga perguntou. Lembro-me de ter pensado que o pai nem desapareceu, não entrou num avião que foi desviado ou num navio preso por piratas da Somália, no Triângulo das Bermudas ou no topo de uma montanha. O meu pai morreu, estúpida. Não se perdeu. Mantive-me em silêncio. Uma especialidade aqui da casa. A psicóloga tentou outras abordagens e, ao fim de cinquenta minutos, foi com enorme alívio que me disse que podia sair.”

“Seria bom se o mundo não parecesse tão difícil. Por mais que faça, há sempre qualquer coisa que não se ajusta, como uma peça com defeito, faz-se um esforço para a encaixar e não é possível. Eu sou essa peça. Outras vezes sou a pessoa a colocar a peça. Depende.”

Advertisements

6 pensamentos sobre ““Contracorpo” de Patrícia Reis

  1. Gostei de “Contracorpo” e confesso que o li apenas no intuito de “tirar a teima” face ao anterior “Por Este Mundo Acima” que, na minha opinião, ficou muito aquém do que esperava até mesmo em relação a várias opiniões que li sobre o livro. “Contracorpo” superou as expetativas. É um bom livro para ser trabalhado nas escolas, entidades que trabalham com jovens e as famílias, naturalmente.

    • Um grande problema em usar o livro como ferramenta de trabalho seria encontrar as pessoas certas, com a sensibilidade necessária, para conduzirem essa discussão. Mas concordo com a tua sugestão. A morte continua a ser um tabu, algo que não se fala, não se discute e que se “empurra para debaixo do tapete”. Creio que só tinhamos a ganhar como sociedade se houvesse uma real preparação das pessoas para essa questão; talvez se poupasse muito sofrimento e fosse menos penoso passar pelo processo do luto.Este foi o primeiro livro da Patrícia Reis que li. Fiquei com vontade de ler “Por este mundo acima” pela sua sinopse mas o teu comentário fez-me pensar 2 vezes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s