Amuleto – Roberto Bolaño

Amuleto    Finalmente foi possível deixar a minha opinião e escolhi fazê-lo com o último livro que li. Não foi o mais apaixonante mas tem o seu interesse.  Interessante é um adjectivo que pode significar enfadonho quando não queremos afrontar quem muito o apreciou ou incutir algum mistério em quem o deseja ler. Neste caso, há um misto dos dois. Não consegui lê-lo sem parar, o que acontece quando estou realmente envolvida com a história ou as personagens. Um romance um tanto delirante e nostálgico demais para o meu gosto, mas escrito com vigor, convição e frontalidade para uma personagem como Auxilio Lacouture que conheceu e conviveu com grandes nomes da cultura mexicana. Personagens amarguradas, boémias, promiscuas, precocemente desaparecidas da vida mas não da memória dos homens.

Uruguaia de meia-idade, alta e desdentada, exilada na cidade do México sem documentos, sujeita à solidão e á fome mas generosa e corajosa – a mãe de todos os poetas. Uma mãe que nunca o foi, e que observa e admira os poetas e sobre eles profetiza o futuro.

Na narrativa, o que mais me confundiu foram os saltos temporais e o significado de frases como esta. “Seja o que for, alguma coisa acontece ao tempo e não, por assim dizer, ao espaço. Pressinto que alguma coisa acontece e que além disso não é a primeira vez que acontece, ainda que tratando-se do tempo tudo aconteça pela primeira vez e aqui não há experiência que valha, o que no fundo é melhor porque a experiência geralmente é uma fraude.” (pag.96)

Uma alegoria sobre uma geração de latino-americanos que caminharam para o abismo e cantaram o amor, o desejo e o prazer que tiveram? Ou um alerta? Um aviso?

Um romance de pequenas dimensões, intempestivo e enérgico que nos desperta os sentidos e nos conduz a uma reflexão em espelho. Terei que o reler numa outra fase para melhor absorver o muito que quer revelar.

Sinopse: A voz arrebatadora de Auxilio Lacouture narra um crime atroz e longínquo, que só virá a ser desvelado nas últimas páginas deste romance – no qual, de resto, não escasseiam crimes, sejam eles os dos quotidiano, ou os da formação do gosto.

Uruguaia de meia-idade, alta e magra como Dom Quixote, Auxilio ficou escondida na casa de banho das mulheres, enquanto a polícia ocupava, de forma brutal, a Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México, em 1968.Durante os dias que aí permaneceu, os lavabos converteram-se num túnel do tempo, que lhe permitiu rememorar os anos vividos no México e antever os que estavam por vir.

Neste exercício evoca a poeta Lilian Serpas, que foi para a cama com Che, e o seu desafortunado filho; os poetas espanhóis León Filipe e Pedro Garfias, a quem Auxilio serviu voluntariamente como empregada doméstica; a pintora catalã Remedios Varo e a sua legião de gatos; o rei dos homossexuais da colónia Guerrero e o seu reino de terror; Arturo Belano, uma das personagens centrais de Os Detetives Selvagens; e a derradeira imagem de um assassínio esquecido.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Amuleto – Roberto Bolaño

  1. Nunca li Bolaño. Tenho alguma curiosidade mas pouca vontade, confesso. Gostei deste teu parecer; também não percebi a frase transcrita…

  2. Tenho um amigo que venera Bolaño, mas ainda nao me dispus a lê-lo. Tenho “Os Dissabores de um Verdadeiro Polícia” e li umas quantas páginas, parecendo-me tao confuso que o abandonei. Mas quero ver se regresso um dia.

  3. Pois, não é fácil. Alguma predisposição para uma leitura exigente e intensa. Para além disso, com sentidos dúbios das frases. Para quem como eu lê frequentemente em pequenas pausas não o recomendo.

  4. Na verdade, apesar das múltiplas ironias, sentidos dúbios e das milhares de referências que o autor vai semeando o livro, até que achei Amuleto um tanto simples. Mas acho que foi porque antes li os Detetives Selvagens. Amuleto é na verdade um trecho pinçado dos Detetives, que o autor desenvolveu, à parte. E já que o Detetives Selvagens foi definido pelo próprio Bolaño como uma “carta de amor” a toda uma geração – a dele, de jovens latino-americanos tirados ao abismo das ditaduras militares que nos assolaram -, dá pra entender que Amuleto segue nessa toada (a obra dele vista como um todo, então, é com certeza bem interessante!). Só que ao invés de uma carta de amor, Amuleto é um conto de terror. Foi um dos livros mais tristes que já li.

  5. Obrigada Bruno. Foi essa a sensação. De que me faltavam parte(s) de um puzzle e que não tinha abrangido tudo o que o que o autor tinha em mente. E é triste, sim. Sofrido. Não é muito agradável de sentir quando terminas uma obra. De perda, desperdício de valores humanos. Algo comum em certos autores que refletem o ambiente político/ social no que escrevem

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s