A Estrada – Cormac McCarthy

a EstradaO livro retrata um mundo negro e sem esperança, anos após “a catástrofe”.
Um mundo onde não já nada existe porque foi destruído. O Homem, por fim, destruiu o mundo!
As belas cores de outrora: o exultante rosado do amanhecer, o inspirador dourado do sol, a alegre cambiância do verde das árvores e campos, o maravilhoso azul do céu e do mar Tudo foi substituído pelos matizes do cinza e negro. O dia apenas difere da noite como que numa progressão das tonalidades daquelas duas cores. O frio enregela. O crepúsculo do mundo chegou.
Aos sons das cidades sucedeu o mais completo e insidioso silêncio. Um silêncio que pesa e fere.
Não existem animais nem plantas. Foram dizimados. De alimentos, apenas o que restou da época pré-catástrofe e que escasseia. Os saques sucedem-se. Ninguém se preocupa em “criar”, se é que há condições para tal.
Quantos homens e mulheres existem, não se sabe. E, os que existem são de evitar. A escassez de alimentos, a sensação de impunidade e poder propicia a falta de valores. A natureza animalesca sobrepõe-se à natureza humana sensível e de respeito pelo próximo. O canibalismo reina e a perfídia é palavra de ordem.
Pese embora o cenário, é um livro de esperança no futuro. E um livro de amor. Do amor mais forte que há: de um pai para com o seu filho, ainda criança. A sublimação deste amor transforma o pesadelo em sonho, aqui e ali. Em sorrisos, muitas vezes. Em coragem e abnegação e esforço e tenacidade, a cada página.
A sensibilidade é tocante, a cada passagem. O pai, doente, luta para transpor, a pé, guiando um carrinho de supermercado, muitos quilómetros por entre aquele mundo destroçado até à costa, em busca de um lugar mais aprazível, mais quente e com gente boa, que acolha o seu filho, até porque pressente que vai morrer. A sua tosse agrava-se ao longo da Estrada.
Os diálogos e momentos entre pai e filho são plenos de carinho. A criança, perante o amor de que é alvo, fortalece no seu interior, ainda que definhe, fisicamente, por efeito do andar a pé e da (alguma) fome. Mas a inclemência dos tempos atenua-se aqui e ali quando encontram víveres que lhes permitem prosseguir.
A luz do futuro brilha a cada passo. Afinal, eles transportam o fogo! Parábola que o pai criou para incutir força e tenacidade na criança. Para a fazer sentir-se importante naquele mundo de trevas.
Não sabem o que aí vem. Sabem apenas que se têm mutuamente e que têm um objectivo a prosseguir sem olhar para trás. O depois, se verá.
“Porque nós somos os bons.
Sim.
E transportamos o fogo.
E transportamos o fogo. Sim.
Está bem.”

Sinopse: Um pai e um filho caminham sozinhos pela América. Nada se move na paisagem devastada, excepto a cinza no vento. O frio é tanto que é capaz de rachar as pedras. O céu está escuro e a neve, quando cai, é cinzenta. O seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando – e um ao outro. A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia um futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, “cada qual o mundo inteiro do outro”, se vão sustentando através do amor. Impressionante na plenitude da sua visão, esta é uma meditação inabalável sobre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afecto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total.

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5 pensamentos sobre “A Estrada – Cormac McCarthy

  1. O livro parece muito interessante, Isabel. Alguns aspetos do teu texto fazem-me recordar “A Ilha de Sukkwan” de David Vann que também recomendo.

  2. E leu Sara… Ela ficou curiosa com o livro que o jorge referiu, lol! Na Rosa só comentamos livros lidos…eheheh
    Agora a sério. li A Estrada já há algum tempo e senti que tinha acabado de ver um filme… Muito bom mesmo!

  3. Isabelinha, que ótimo comentário. Acho que ainda não tinha lido nenhum teu. Não é o género de livro que procuro ler neste momento mas parece-me um título a reter.

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