“Herman” de Lars Saabye Christensen

Como vê o mundo um garoto de 12 anos? Como tenta dar sentido às coisas, pessoas e acontecimentos? Como consegue lidar com algo que acontece e que o torna manifestamente diferente dos outros miúdos da sua idade?

Neste romance, Lars Saabye Christensen escreve como se fosse essa criança e fá-lo de uma forma magistral, tocante, candidamente simples e extraordinariamente verosímil. Este livro, que me atraiu desde a primeira vez que ouvi um seu pequeno excerto, é naturalmente um retorno ao mundo da infância, ou melhor, do início da adolescência. Uma viagem de encontro ás memórias de um tempo em que não tínhamos medo de perguntar fosse o que fosse e explicávamos  o mundo através da nossa imaginação. Mas é também um percurso de crescimento, de esforço interior de um rapaz que, confrontado com a sua própria diferença,  começa a aceitar as particularidades dos outros ao mesmo tempo que procura perceber e adaptar-se ao que lhe acontece.

Herman faz, por fim, tréguas consigo e com o mundo deixando-nos com um sorriso de terna satisfação por nos termos cruzado com ele e com a sua história invulgar.

Um livro a ler com olhos e coração de criança.

“ Herman não diz nada, ele precisa de todas as suas forças para seguir os passos do pai. Quando o pai dá um passo, Herman precisa de dar pelo menos quatro. E as ruas estão tristes e vão no sentido errado. As manhãs de domingo são as manhãs mais solitárias de todas, é quando Deus acorda demasiado tarde e esquece-se de pôr o mundo em movimento. As únicas pessoas que estão na rua, além de Herman e do pai, são umas poucas figuras escuras e lentas ao longe, indo a uma ou outra igreja para ajustar o despertador para Deus acordar, abrir as nuvens, ligar o sol e fazer novos e melhores planos.”

“Herman repõe lentamente o gorro e olha pela janela enquanto pensa no dente do tempo 1 , em que tantas pessoas falam. No fundo é estranho pensar que o tempo só tem um dente, mas em contrapartida o tempo deve ser muito velho, se está acordado desde o início dos tempos. Herman tenta imaginar um tal sorriso. O tempo que sorri com desdém com um dente podre na boca. Não é uma visão agradável.

No recreio fica só junto ao bebedouro. E de novo é como se ele estivesse invisível; todos olham para baixo, olham para o lado e evitam-no. Ninguém tenta tirar-lhe o gorro, ninguém faz troça dele, o que quase teria sido melhor,  porque assim podia defender-se e ameaçado com os cabelinhos em ponto de exclamação. Agora não tem nada com que defender-se. Herman começa a compreender uma coisa, sem no entanto compreender o que compreende. Eles têm pena de mim, pensa. E isto é quase o pior de tudo.”

1-    referência a uma expressão norueguesa que se refere ao efeito destruidor da  passagem do tempo como “o dente do tempo”.

 
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4 pensamentos sobre ““Herman” de Lars Saabye Christensen

  1. “Herman” é um livro muito especial e extremamente bem conseguido. A doçura das palavras de Lars Saabye Christensen remontam sobremaneira às obras magistrais de Knut Hamsun, outro norueguês, Recomendo igualmente as outras obras do escritor publicadas em português, nomeadamente “Beatles”, “O Modelo” e o obrigatório “O Meio-Irmão” que conta a história de Fred e Barnum.

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