A Civilização do Espetáculo – Mario Vargas Llosa

acivilizacaodoespetaculoQuase uma semana após a conclusão da leitura de “A Civilização do Espetáculo”, é que me atrevo a tentar escrever algo que possa refletir o que senti ao lê-lo.

Receosa de não conseguir exprimir e partilhar o brilhantismo de Llosa, tentarei explicar o porquê deste ser, provavelmente, o melhor, ou dos melhores livros que li em 2012.

Não escondo a minha predileção por este escritor, pelo que parto sempre para um livro dele com a certeza que me vai realizar como leitora. Neste caso, o tema, por me ser particularmente caro, deu-me um entusiasmo tal que as primeiras 100 páginas foram lidas de seguida já altas horas da noite, afastando qualquer hipótese de me deixar adormecer.

A cultura está em crise? Que género de crise? As pessoas não procuram cultura? Ou procuram o que acham que é cultura?

Muitas dúvidas e questões que ficam nas consciências de quem tem noção (como Llosa) de qual é o papel das iniciativas culturais na vida em sociedade. Este livro, direcionado para vários pontos culturais fulcrais, descreve uma verdadeira e total crise de valores e conceitos relacionados com a forma como a cultura se tornou um espetáculo, uma triste civilização de espetáculos fúteis, sensacionalistas e deprimentes.

Será Llosa um fundamentalista? Um exagerado? Estaremos todos, sem exceção, aos pés de uma sociedade de cordeirinhos num rebanho que aceita tudo o que lhes dão sem questionar? Que dizem que gostam porque toda a gente assim o faz?

Os livros ocupam grande parte deste ensaio. A forma como a vida útil de um livro o faz, atualmente, quase um objeto descartável, é alvo de uma crítica feroz mas construtiva por parte do autor. A sucessão de novidades, as edições em massa de lixo editorial promovido de forma enganosa estão a deformar o propósito enriquecedor dos livros. A partilha por empréstimo é quase inexistente, o consumo desenfreado chegou aos livros, que se vendem pela beleza das capas. Falo por mim, que durante bastante tempo me deixei “maravilhar” pela ”injeção” de novidades. Mais recentemente tenho parado um pouco para pensar e observar todos os livros mais antigos que comprei com gosto e prazer e que ainda estão na estante a aguardar a sua leitura. Deixei-me corromper por esta “Civilização do Espetáculo” doente e enganosa, mas acredito estar a tempo de me recuperar e voltar aos anos em que lia devagar e com mais gosto, saboreando livros bem escritos, lendo menos em quantidade mas atingindo mais em realização pessoal.

É feito um enquadramento, questionado o papel do governo na permissão e interessa nesta patética “Civilização do Espetáculo”. Claro que a busca cultural tem de partir do interesse de cada um, mas uma nação culturalmente doente, em que quem está ao leme descura e despreza o real conceito de cultura, não pode fazer surgir do nada o interesse por valores diferentes. À religião é também dedicada uma grande parte deste ensaio, dado que é, ainda hoje, uma influência fulcral na sociedade; confesso que foi a parte que menos me cativou, apesar de considerar as questões bem expostas e fundamentadas.

Llosa, como amante e defensor das artes é arrebatado na defesa dos seus ideais. Por vezes  cruel pois a cultura também não pode ser, a meu ver, obrigação. A distração e divertimento têm de existir, de marcar a diferença, de ser um caminho cativante e colorido nas vidas cinzentonas daqueles para quem, por exemplo, a profissão é um castigo. Deverá ser uma forma de esquecer tristezas e sonhar.

É um facto que cultura é seriedade. Atualmente não é considerada como tal. Mas a indústria do entretenimento não deverá, a meu ver, ser tão seriamente condenada. Numa época em que a humanidade é, na generalidade, triste, não devemos colocar em causa o poder de um filme ou série de televisão só porque não atinge os mais altos padrões culturais. Mas sim dar-lhe uma oportunidade se, por uns momentos, trouxer alguma liberdade a quem se sente preso pelas exigências da vida atual. As pessoas têm a liberdade de escolher, se apenas optam pelo que é fácil e fútil, isso se deve à crise de valores, mas muitas há que procuram, necessitam e vivem de cultura, da original, a que alimenta a alma, faz pensar questionar e crescer.

Valorizei muito as opiniões pessoais e a partilha de experiências de vida que Mario Vargas Llosa faz neste livro. Fez-me pensar e questionar, por vezes concordar e por vezes achar que ele já estava a ir longe de mais. Acima de tudo fez-me meditar sobre o meu lugar, onde estou e onde quero estar. Um livro que não me deixou indiferente, que me trouxe revolta e alegria, que me fez querer ser melhor.

Sinopse

“A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afeta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, atua como mecanismo de distração e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa.”

Quetzal, 2012

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