No Meu Peito Não Cabem Pássaros – Nuno Camarneiro

No Meu Peito Não Cabem PássarosSomos informados pela contracapa deste livro de que as figuras de Kafka, Pessoa e Borges “pairam” sobre o texto que estamos prestes a ler. E, com este simples aviso, mergulhamos no universo caleidoscópico de três personagens com uma sensibilidade fora do vulgar, que, desprovidos da capa amortecedora que protege o comum dos mortais, atravessam as respectivas vidas sentindo intensamente cada embate da realidade.

Karl (Kafka) é um imigrante desajustado na enorme e impessoal Nova Iorque, solitário e em busca de referências no caos em que sobrevive. Jorge (Borges) é uma criança inadaptada e depois um adulto desiludido, não conseguindo encontrar lugar no mundo terrreno para os universos fantásticos que lhe povoam a mente. Fernando (Pessoa) é uma criança doente na casa lisboeta das tias e um adulto inconformado que vive um romance puramente intelectual com alguém que comunica consigo através das próprias palavras dos seus versos.

No entanto, este livro é muito mais do que uma evocação de três vultos literários, das suas vidas e obras. Esse é apenas o enquadramento, a moldura. Essas são as linhas que vão ser preenchidas pelo Autor com reflexões sobre a vida, a morte, o amor, o ódio, o medo, as relações humanas, os traumas, as recordações, a infância, a idade adulta. E são essas reflexões que nos prendem, mais do que o destino das personagens em concreto, particularmente devido à forma como se encontram expressas: numa linguagem harmoniosa, trabalhada ao pormenor, onírica e real ao mesmo tempo, que apela directamente ao nosso sentido estético sem deixar de retratar com precisão vivências e sentimentos comuns a todos os seres humanos. Assim, identificamo-nos e maravilhamo-nos com o que lemos, e lemos devagar, apreciando cada frase como se a saboreássemos, duplamente deliciados com a sua exactidão e com a sua beleza.


Excertos:

“Junto às tias e a esta terra, tudo volta a ser pequenino. O sufixo parece ser anterior às palavras, o menino está cansadinho, a viagem foi boazinha, está tão branquinho, coitadinho. Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as Indiazinhas, as Americazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os Portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?” (pág. 24).

“Fernando sabe o que teme, conhece o seu inimigo, que se veste de cinzento e anda de mão dada com toda a gente. O inimigo de Fernando é agradável, consensual, ligeiro. O seu inimigo é o agradável, o consensual, o ligeiro e todas as outras formas de nada que são modos de saltar do berço à cova sem importar a ninguém e muito menos a si próprio. Disfarçado no banal, será finalmente livre de ser qualquer coisa escondida, a sombra imensa de um funcionário que funciona.” (pág. 78).

“Um retrato traz-nos um pedaço de mundo visto pelos olhos da realidade. É assim que eu sou, assim me vêem. Que máquina mostrará um dia o outro lado da gente? Quem há-de retratar os bastidores desarrumados das nossas poses serenas?” (pág. 113).

“Está o céu a arder e há tanto para fazer antes que chegue a noite. Os homens são curiosos e fazem difícil a vida dos deuses, não há céu que os eleve. Os homens são de baixo, do que é pequeno, da rotina e do dever, das vontades curtas, da fome, do desejo que não se adia. Se o mundo acabar, que acabe, mas que nos leve de barriga cheia e nos dispense a metafísica.” (Pág. 130).

“No mesmo corredor mora outro homem, outro sono, o mesmo não acordar como quem furta ao tempo alguns minutos. Quem nunca quis dormir até a vida ser um lugar praticável, quem não conhece o desconsolo de vestir cada dia uma pele curta nas mangas, que vá abanar este homem, que o chame com a voz cheia de realidades e diga: «Levanta-te, Karl, levanta-te à hora de viver.»” (pág. 164).

Anúncios

6 pensamentos sobre “No Meu Peito Não Cabem Pássaros – Nuno Camarneiro

  1. concordo! gostei muito deste, mas «debaixo de algum céu» é mais intenso, mais nós, eu diria, mais pão nosso de cada dia ;)… estou a preparar a crítica, aliás! 😉
    até à próxima roda, caso seja possível

  2. Também gostei mais do “Debaixo de Algum Céu”. Tem mais a ver com a nossa realidade. Também comentei, aqui no blog. Na próxima queremos-te lá!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s