“Os Fragmentos” – Ferreira de Castro (Guimarães Editora)

Os Fragmentos - Ferreira de Castro

Os Fragmentos reúne três contos de índole mais jornalística e ainda o romance “O Intervalo” precedido pela Origem de «O Intervalo» em que o autor explica o que esteve na base da obra escrita em 1936 incluindo o facto de a mesma ter ficado na gaveta durante quase quatro décadas por motivos relacionados com a censura. A publicação da obra ocorreu apenas em 1974, pouco tempo após a morte de Ferreira de Castro.

À semelhança das outras obras de Ferreira de Castro, “O Intervalo” tem como questão central a luta pelos direitos humanos e dos trabalhadores de modo que a sociedade seja mais justa ao longo do século XX, sendo, pois, eliminadas as desigualdades entre os ricos, os detentores do capital, e o proletariado, a força do trabalho.

Passada no início dos anos 30, a obra conta-nos a saga de Alexandre Novais, um anarco-sindicalista que em Lisboa é perseguido pelas forças da autoridade do regime após o seu envolvimento numa greve que estava anunciada. Durante as rusgas a sua esposa é morta e Alexandre Novais sem condições de sustento para os filhos, vê-se na iminência de abandonar o país rumo à Espanha com a ajuda dos seus companheiros de ideologia.

Em Espanha, Alexandre Novais não tem uma vida fácil tendo sido encarcerado mais do que uma vez, torturado e do ponto de vista profissional, desempenhou funções que outros também não queriam, para além de ter igualmente estado desempregado.

Rapidamente identificaram este português como um potencial apoiante do movimento de esquerda que, em Espanha, no início dos anos 30 fervilhava secretamente com as ideias anarco-sindicalistas e comunistas em oposição ao regime republicano vigente no poder.

Crente na redenção da Humanidade através dos valores profundamente humanos, Alexandre Novais nunca perde a esperança de algum dia, ainda que muito longínquo, todos os homens possam viver com dignidade. Nem mesmo quando a situação política se agrava em Espanha arrastando o país para uma dura e violenta guerra civil (1936-1939) que ainda hoje são visíveis as consequências, Alexandre Novais decide apoiar o movimento republicano cuja democracia frágil é preferível defender em nome da liberdade em oposição à ditadura então vigente no seu país e de onde precisou fugir.

Passados praticamente 40 anos após a publicação deste romance, O Intervalo levanta questões tão pertinentes quanto perigosas mostrando, no fundo, uma actualidade imensa, o que significa que pouco ou nada progredimos do ponto de vista da cultura democrática. Parafraseando Ferreira de Castro “- (…) A Humanidade está vivendo um intervalo entre o velho mundo que apodreceu e o novo mundo que nós desejamos e há de vir. É um intervalo terrível, com grandes sofrimentos para muitos. (p. 194)

Precisamos acreditar mesmo quando os tempos são adversos e a esperança não é muita. Ainda assim, há que mantê-la acesa “esta forte esperança de que, um dia, o Mundo será mais justo e até os homens serão melhores.” (p. 325)

Excertos:

“A sede de justiça deve ser clamada inúmeras vezes, clamada até que a justiça venha e apague a sede, pois um só grito na noite pode despertar quem dorme, criando breves momentos de expetativa e de incerteza, mas, se outros gritos não lhe sucederem, acaba-se por voltar ao sono.” (p. 25)

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A minha alma, não obstante os sofrimentos, andou sempre iluminada por intensa fé nos destinos humanos. Daí me veio apodo. O meu nome é Alexandre Novais, mas chamavam-me «O Século Vinte», porque eu, durante a juventude, afirmava nos sindicatos, nos comícios, nos Cafés, afirmava por toda a parte, que o século XX seria o século da redenção, terminando as lutas, as desigualdades e os ódios que nos separam e passando a Humanidade a viver fraternalmente. Depois disso, é certo, fui forçado a percorrer várias nações em busca de pão ou de refúgio; e em quase todas me maltrataram, me prenderam, me expulsaram, considerando-me «indesejável». Vi lutas horrendas entre os homens, torrentes de ódio que davam ao século por mim considerado redentor semblante trágico de época primitiva; mas em toda a parte encontrei também a profunda aspiração por um mundo mais justo e mais fraternal.

(…) Continuo a crer, pertinazmente, pertinazmente, que o século XX está forjando a redenção e a paz da Humanidade.” (pp. 88-89)

“- Vocês não me querem compreender. Paciência! Mas eu vos repito que a mentalidade geral começa a transformar-se e que estamos perto de uma nova era, graças sobretudo ao proletariado e a alguns intelectuais. De alguma coisa valeram os nossos combates e os nossos sacrifícios. Só no futuro se poderá avaliar quanto representaram no progresso da Humanidade as lutas sociais do século passado e do nosso. É claro que eles pensam apenas em reformas e nós queremos muito mais. Não queremos uma sociedade só remendada; queremos uma sociedade nova e por isso temos de continuar a lutar.” (p. 210)

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“Que vivemos perseguindo uma aspiração sempre tão fascinante e sempre, até hoje, tão fugitiva, tida pelos egocentristas como absurda quimera, enquanto para outros cintila como realidade próxima, generosa e redentora. E que é, para todos, como uma ciclópica fábrica de inquietação, pois no desencontro imenso da Humanidade, com as classes renhindo entre elas, umas pelas suas velhas regalias, outros por uma igualdade a raiar no futuro, as doutrinas em conflito vão trespassando de sangue a Terra, húmus formidável de toda uma época e do mundo de amor que há de vir, que há de vir, que há de vir um dia, um dia talvez ainda longínquo, mas um dia! Por esta crença amparado, por esta crença que resiste a todos os desenganos, a todas as incompreensões, a todos os suplícios e a todas as dores, passa um longo cortejo de sombras humanas. As que amei, as que vi tombar ao meu lado, as que se perderam em anónimas derrotas, em sonhos jamais consumados e que na memória das gentes só persistirão como uma ideia de conjunto, pó de um século, cinzas de um instante da Eternidade. São centenas de figuras topadas ao longo da minha áspera jornada, síntese de milhões de milhões de outras, para as quais a vida é apenas servitude e miséria, tendo por única redenção a morte e por único lenitivo, no espírito de alguns, esta forte esperança de que, um dia, o Mundo será mais justo e até os homens serão melhores.” (p. 325)

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Um pensamento sobre ““Os Fragmentos” – Ferreira de Castro (Guimarães Editora)

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