Filhas Rebeldes – Manju Kapur

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À primeira vista, este livro descreve a luta de uma jovem do Punjab, Virmati, pela sua liberdade individual, que lhe é constantemente negada em nome das tradições sociais vigentes na Índia dos anos 40. Sendo a filha mais velha da família, espera-se que case bem e depressa, já que uma mulher que não case é uma pária da sociedade e as suas irmãs só poderão casar-se depois dela. Virmati não quer casar-se e deseja acima de tudo estudar, o que acaba por conseguir, apesar de, para isso, ter de afrontar a família, para quem será sempre motivo de uma vergonha insuportável.

Esta é a história mais superficial que este livro nos conta. Porém, subjacente a ela, encontra-se o verdadeiro drama de Virmati: o grande entrave à sua independência não vão ser, afinal, as regras rígidas da sociedade em que se insere nem os desejos da sua família; a maior ameaça vem da paixão a que ela própria sucumbe, uma paixão por um homem casado, seu Professor, de quem se torna amante e que não consegue esquecer, apesar de o tentar repetidas vezes.

O dilema de Virmati torna-se, então, muito mais politicamente incorrecto do que a simples luta pela independência de uma mulher destinada à domesticidade. Ela poderia perfeitamente ter-se afastado do amante, continuado com os estudos e prosseguido a sua vida como professora ou directora de uma escola, em pleno usufruto da sua tão almejada liberdade. Mas o grande problema está dentro de si mesma: Virmati ama-o e e, apesar de antes de o conhecer ter decidido não querer casar-se, agora deseja com todo o seu coração casar-se com ele. Infelizmente, o carácter do Professor deixa bastante a desejar e ele mantém-na apaixonada com juras profusas de amor eterno enquanto foge a sete pés de qualquer conversa sobre casamento e vai perpetuando uma situação que para si é cómoda e para ela desesperante: mantém a esposa perfeita em casa e a amante perfeita fora dela.

Virmati dispõe agora de uma educação invejável e raríssima em mulheres indianas, da possibilidade de se sustentar e ser autónoma, mas está longe de ser livre: é emocionalmente dependente do seu amante e sofre terrivelmente por não fazer parte da vida dele a não ser em breves encontros escondidos de todos. Aqui chegados, é impossível não nos lembrarmos da quantidade de casos semelhantes que nos rodeiam, mesmo em sociedades ocidentais e ditas evoluídas, mesmo em pleno séc. XXI. Seria de esperar que a emancipação económica feminina levasse ao desaparecimento deste tipo de situações, mas percebemos, então, a grande e incómoda mensagem deste livro: de nada serve a independência financeira quando não existe independência emocional. Muito mais difícil do que ultrapassar as limitações impostas por entidades exteriores, como a sociedade ou a família, é ultrapassar as limitações impostas pelo próprio íntimo. E, para mais, neste último caso não há bodes expiatórios a quem imputar a desgraça de uma vida desperdiçada se se perder a batalha.

Virmati tem inteligência suficiente para perceber que o homem que ama não está interessado em mudar nada e para se enfurecer com as suas evasivas perante qualquer interpelação mais directa. Compreendemos que sabe bem que uma vida ao lado de alguém tão dissimulado nunca poderá fazer ninguém feliz. Mas nada disso muda os sentimentos que nutre por ele nem a vontade irreprimível de se juntar a ele em definitivo. A sua racionalidade não tem força suficiente para calar o coração. E é com tristeza que assistimos ao inevitável desfecho: infelizmente para si, Virmati acaba por conseguir o que quer. Casa-se com o homem dos seus sonhos. E é infeliz para sempre.

Dito isto, não posso deixar de referir que a leitura deste livro me desiludiu. O tema é riquíssimo e seria possível construir, a partir dele, uma história fascinante. No entanto, tal não acontece. A escrita da autora é plana, monocórdica, sem qualquer rasgo de genialidade ou mesmo marca de estilo próprio. A leitura torna-se cansativa, como uma paisagem imutável, e, em quase trezentas páginas de texto, não encontrei uma única passagem que me tivesse impressionado pela forma ou pelo conteúdo. Fiquei com pena que assim fosse, especialmente pela profunda humanidade do assunto escolhido, que merecia, sem dúvida, um tratamento mais lisonjeiro.

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3 pensamentos sobre “Filhas Rebeldes – Manju Kapur

  1. Excelente opinião Sónia. A mim o que mais me “cansou” foi mesmo o glossário, quase “palavra sim-palavra sim” sem perceber o significado é demais.

    • Sim, eu sempre achei um erro crasso a opção de rechear os textos de termos que requerem uma consulta ao glossário. Obriga-se o pobre do leitor a escolher entre não perceber metade daquilo que lê ou interromper a leitura constantemente. Qualquer das duas hipóteses é um atentado ao prazer de ler. Mas, infelizmente, é uma moda que teima em não desaparecer…

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