Emigrantes – Ferreira de Castro (Guimarães)

57. emigrantes

Emigrantes (1928) é um belíssimo livro de Ferreira de Castro (1898-1974) que aborda a temática da emigração portuguesa especificamente no Brasil. As ambições e desejos à partida esfumaçam-se rapidamente à chegada perante as muitas dificuldades que se apresentam.
Um livro que mostra com dureza e realismo as condições de vida dos emigrantes portugueses no Brasil no início do século XX não esquecendo o profundo humanismo com que o escritor apresenta as ideias essenciais questionando ao longo de toda a obra o sentido de justiça da humanidade.

Excertos:

Foto  Castro ed sueca“Tudo quanto de grande tinham as províncias de Portugal (…) era devido aos emigrantes que haviam enriquecido lá fora. Eram eles, os que partiam pobres e regressavam ricos, que mandavam construir hospitais, troços de estrada, igrejas, chafarizes, melhoramentos públicos de toda a ordem. Se esses homens não tivessem saído da terra, jamais poderiam dar a esta benefícios e orgulho!” (p. 63)

“(…) É a segunda vez que venho até cá [Brasil]. Agora, não sei se terei tempo para arribar de novo. Isto já não dá nada, mas um homem acostuma-se e, além disso, falta-lhe depois a coragem de aparecer na terra com as mãos a abanar. Só estive lá quinze dias; foi matar saudades e partir a toda a brida, antes que descobrissem que eu não tinha cheta.
(…) Estive seis anos no Rio de Janeiro e quase outros tantos na Argentina. Também trabalhei uns meses em Montevideu. Corri mundo. Vi terras, lá isso vi! E eu gosto de andar. Mas a respeito de dinheiro… Ao fim de tanto tempo fui a Portugal com dez réis no bolso, porque já não podia sossegar sem ver aquelas árvores onde eu trepava à cata dos ninhos, quando era pequeno.” 
(p. 144)

“A gente, quando anda cá por estas lonjuras, julga que todos lá na terra estão sempre a pensar em nós. E vai daí, um dia arranjamos uns patacos e marchamos para lá. Tudo muito bem; senhor fulano daqui, senhor fulano de acolá, mas o que eles querem saber é se a gente leva muito dinheiro. Se não leva, são logo murmurações e até nos olham por cima dos ombros. Não é desonra nenhuma um homem ser pobre, mas, lá na terra, quem chega do Brasil tem sempre vergonha de não ser rico.”

(p. 145)

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“Afinal, onde estava todo esse dinheiro do Brasil que ele não via, nem para si, nem para os italianos, nem para os brasileiros que trabalhavam de sol a sol? O que ele enxergava era muita ambição e muitos pobres como em Portugal, como em toda a parte.”  (p. 188)

“Havia sonhado um regresso de triunfador: dinheiro para a esquerda, dinheiro para a direita, mancheia de tostões atirada ao rapazito sôfrego, que se encabritaria no pó da estrada para agarrar as moedas; uma ajuda ao senhor abade, que sempre tinha gastos a fazer na igreja; a compra das terras do Esteves, bons fatos, bons chapéus e uma casa nova de dois andares, na encosta dos Salgueiros. Agora, porém, só via a cara desdenhosa dos seus conterrâneos, que respeitavam os homens, sobretudo, pelos seus haveres e não compreendiam facilmente que se regressasse do Brasil sem riqueza.” (p. 220)

“A sua alegria desvanecera-se e agora, volvido de novo para o cais, ao ver os últimos emigrantes desembarcados, que caminhavam, trôpegos e miseráveis, entre as mulheres e os filhos, apiedava-se deles. «Aqueles diabos imaginavam que para se enriquecer bastava ir por aí fora, com ganas de trabalhar. Ele também pensara assim, mas depois é que vira. Bem lhe diziam o Hermenegildo e o Fernandes que só com o seu trabalho um homem não enriquecia. Se não fosse isso, ele estaria podre de rico… Mas qual! Nem os ricos iam deixar que todos enriquecessem, senão – claro! – não tinham quem lhes fizesse as coisas de que eles precisavam…” (pp. 252-253)

“Há cada ricaço que é de a gente lhe tirar o chapéu! Que ricos, há-os em toda a parte. Também os há aqui e bem pertinho. O que eu queria é que não houvesse pobres.”  (p. 275)

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2 pensamentos sobre “Emigrantes – Ferreira de Castro (Guimarães)

  1. Olá Sónia! Ferreira de Castro foi uma das recentes descobertas literárias que fiz graças ao clube de leitura de Sintra que tem lugar no Museu Ferreira de Castro. Já li várias obras do autor e gostei de todas elas. O autor tem uma escrita muito centrada nos direitos dos homens e dos trabalhadores, não esquecendo as vicissitudes da vida.
    “Emigrantes” é um belíssimo livro e com uma atualidade sem precedentes!

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