A Justiça de Yerney – Ivan Cankar (Cavalo de Ferro)

26. Ivan Cankar, A Justiça de Yerney (1907)

A Justiça de Yerney (1907) do esloveno Ivan Cankar traz para debate a articulação entre a justiça divina e a dos homens. Haverá consenso? Em termos gerais, a questão é colocada nestes termos ao longo de toda a obra:
“(…) A quem pertence a macieira: ao homem que a plantou e enxertou, ou ao que ao passar, só colheu as maçãs quando estavam maduras?” (p. 90)
Numa obra profundamente revolucionária para o início do século passado, Ivan Cankar questiona ao longo de toda a obra “(…) a que porta devo bater? Há tantas aqui.” (p. 90)

Ivan Cankar

“Encerrastes a justiça nesta grande casa, para que não possa espalhar-se pelo mundo. Destes duas voltas à chave; mantiveste-la guardada atrás de portas duplas, para que eu não me arriscasse a descobri-la. Roubaste-la e guardaste-la debaixo da beca, para que não se possa mostrar aos olhos que a procuram… Mas conheceis mal o Yerney. Procurá-la-ei ainda que esteja enterrada na terra tão funda quanto o meu suor; usarei uma pá; escavarei e removerei a terra até onde as forças me deixarem…”

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“Uma cidade sem fim, cujo alvoroço se ergue até aos céus; onde se ouvem as mais diversas línguas; a terrível Babilónia, ela mesma – isto é Viena!… Onde nos poderemos abrigar; onde nos poderemos esconder?…
Yerney maravilhou-se ao longo das ruas largas. Havia palácios em ambos os lados das ruas; numerosos veículos vinham e iam de todas e em todas as direções; e uma correnteza de desconhecidos, gente de aspeto carrancudo, afluía e apressava-se ao longo dos passeios, como se duas procissões sem fim se encontrassem e passassem uma pela outra… A quem deveria perguntar o caminho, e como? Com o chapéu na mão, andou às apalpadelas no meio da multidão; sentiu-se perdido e envergonhado no meio de tal gente, como se tivesse sido levado descalço e em mangas de camisa defronte do altar principal durante uma missa solene.
Onde poderia parar, onde poderia descansar? Tudo parecia flutuar defronte dos seus olhos como se tivesse bebido um vinho forte; as pessoas pareciam estranhamente altas e passavam, vestidas como para um baile de máscaras, caminhando com passos largos: passando rapidamente como sombras. Yerney caminhava como um homem embriagado; as pernas fracassaram-lhe; cambaleou; andava cada vez mais devagar e a cada passo temia desmaiar e cair no chão. A rua não tinha fim, as longas filas de gente também não. Yerney rezou e implorou por misericórdia, mas sentiu como se Deus estivesse muito longe, como se a Divina Providência não pudesse ouvir as preces vindas da Babilónia. Caminhou durante algum tempo, até não conseguir mais.”
(pp. 129-130)

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Escultura de Slavko Tihec criada em 1982 que está colocada em frente ao Cankar Hall, em Liubliana, Eslovénia

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3 pensamentos sobre “A Justiça de Yerney – Ivan Cankar (Cavalo de Ferro)

  1. Jorge:
    Obrigada pela divulgação desta obra que tive o imenso prazer de traduzir. Ontem como hoje, questionamos-nos do valor de qualquer das justiças e a qual devemos obedecer. Ou se a alguma. E cada vez mais.
    Boas leituras.
    CCB

    • Boa tarde Conceição,

      É um prazer imenso ter igualmente o feedback da Conceição neste blogue, projeto recentemente criado no âmbito do Clube de Leitores da Biblioteca Municipal dos Olivais, em Lisboa. Não é todos os dias que recebemos um comentário da tradutora da obra que lemos e sugerimos, o que nos deixa bastante orgulhosos.
      “A Justiça de Yerney” é uma obra invulgar que nos confronta com as vicissitudes da justiça deixando-nos simultaneamente desconcertados e se formos mais longe, poderíamos mesmo colocar a questão à boa maneira socrática “o que é a justiça?”
      Esta obra contribui igualmente para a divulgação da literatura eslovena em Portugal enriquecendo-nos um pouco mais com temas universais.

      Grato pela participação.

      Jorge Navarro

  2. Jorge:
    Obrigada pela divulgação desta obra que tive o imenso prazer de traduzir. Ontem como hoje, questionamo-nos do valor de qualquer das justiças e a qual devemos obedecer. Ou se a alguma. E cada vez mais.
    Boas leituras.
    CCB

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