O Legado de Nhô Filili – Luís Urgais (Oficina do Livro)

54. O Legado de Nhô Filili

O Legado de Nhô Filili de Luís Urgais é uma verdadeira surpresa no que respeita às recentes publicações no mercado literário, nomeadamente ao nível do romance histórico. Trata-se de um livro que é apaixonante desde a primeira página capaz de fomentar o desejo de pegar nas malas e ir de viagem para Cabo Verde explorando a realidade de cada uma das suas ilhas.
A escrita de Luís Urgais é simples e não é pretensiosa, sendo, pois, os grandes trunfos do escritor. Nitidamente conhecedor da sociedade de Cabo Verde ao longo da História, O Legado de Nhô Filili conta-nos a história de João Bento Rodrigues, filho de minhotos que nasceu na ilha do Fogo e que foi durante muitos anos o diretor-geral das Alfândegas de Cabo Verde. Nhô Filili como ficou conhecido, era um homem bastante respeitado um pouco por todo o arquipélago por parte de todas as camadas da sociedade: brancos, mestiços e negros.
A vida de Nhô Filili muda completamente assim que compra a escrava Guida por quem se apaixona perdidamente e com quem contrai matrimónio chocando a sociedade do seu tempo.
Pessoa íntegra e culta, Nhô Filili procura inculcar estes valores na sua família assumindo inclusivamente a paternidade de um filho que teve com uma concubina.
O Legado de Nhô Filili percorre perto de um século de história, desde 1869, ano do nascimento de João Bento Rodrigues, e ano em que foi decretada a abolição da escravatura, passando pelo fim da monarquia, a primeira República e ainda as primeiras décadas da ditadura.
Concluindo, O Legado de Nhô Filili é um livro magistral, muito visual e apaixonante tendo todos os ingredientes para ser adaptado ao grande ecrã.
Leitura bastante recomendada!

Excertos:

“João Bento Rodrigues de Abreu Fernandes – que ficaria conhecido como Nhô Filili – nasceu na ilha do Fogo, por ironia do destino, em 1869, ano em que a monarquia portuguesa decretou a abolição da escravatura.
O arquipélago de Cabo Verde constituía há séculos um dos mais importantes entrepostos do tráfico negreiro: indivíduos capturados nas enseadas dos rios e na costa da Guiné eram trazidos até ali para serem embarcados em condições miseráveis em direção à América e à Europa, onde faziam todo o tipo de serviços pesados e desprezíveis. Em Lisboa, negros e mestiços eram, desde o século XVI, uma percentagem significativa da população, e limpavam latrinas, carregavam pesos que nem jumentos, lavavam roupa no Tejo, no Trancão e nas ribeiras, cavavam hortas nos arrabaldes, serviam nas casas particulares, nas oficinas.” (p. 7)


48 Luís Urgais“Quando comiam com gosto e os músicos começaram a fazer vibrar violinos e cavaquinhos, chegou uma mulher ‘bêtche’ [velha] com uns pedacinhos de queijo de cabra embrulhados num guardanapo limpíssimo.
Filili não podia crer nos seus olhos: era, nem mais nem menos, a prenda do povo de Chã das Caldeiras aos ilustres visitantes! Os bocadinhos de queijo eram o único presente possível de gente tão parca em haveres mas de tão grande generosidde. O diretor-geral e o amigo Teixeira entreolharam-se, indecisos quanto ao facto de aceitarem. Mas, sem uma palavra, concluíram que a rejeição seria uma desfeita para os locais, pelo que, pouco ou muito, partilharam entre todos tudo o que havia de comer e beber (…)” (p. 93)

“Eu assumo que, em determinação de Sua Santidade Pontifícia, ando em pecado pelo facto de não cumprir com o celibato de Roma, mas tenho plena consciência de que procuro na Terra praticar a justiça, como nos ensinou Jesus Cristo, no amor ao próximo. Desafio todos aqueles que afirmam não pecar a atirar-me uma pedra. Tenho em casa uma concubina porque o Direito Canónico não me concede o santo matrimónio. No entanto, para todos os efeitos, trato com respeito essa mulher que, pela graça de Deus, me deu três filhos, ao invés daqueles que partilham o leito com mulheres alheias e as deixam nos mais míseros limites humanos. A esses a nossa oligarquia sacerdotal tudo encobre, fazendo dos biltres pecadores anjinhos beatificáveis.” (p. 115)

“Lanço, pois um repto, um apelo à unidade e à dignidade humana: façamos da postura social do pai do nosso José, o antigo e digníssimo diretor-geral das Alfândegas de Cabo Verde, o exemplo da nossa luta; ou seja, assumamos o amor pelas nossas pátrias com coragem, tal como ele assumiu o amor por uma escrava da Guiné, com quem veio a casar-se. Enfrentemos, pois, a vileza das leis que nos subjugam, como ele enfrentou as convenções e a hipocrisia de uma sociedade racista. Nhô Filili, como é conhecido, simboliza, para mim, o pai que é a Europa do Sul, e Nha Guida, a mãe África, tendo ambos dado ao mundo o novo homem, o mestiço, biológica e culturalmente falando. Os meus parabéns a José, que tão bem tem sabido honrar pai branco e madrasta negra. Sejamos cidadãos livres e dignos, sejam quais forem a cor das nossas epidermes, os nossos credos religiosos ou as nossas convicções políticas: brancos impolutos como Filili ou o professor Caraça, negros e negras inteligentes, corajosos e briosos como Nha Guida, mulatos distintos e superiores como o José, o Tenreiro, o Almada e o Viriato, isto só para falar de alguns dos presentes.” (pp. 214-215)

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