A Ilha – Sándor Márai (Dom Quixote)

79. A Ilha

Em A Ilha, Viktor Askenasi, embarca numa viagem interior alucinante fruto da crise da meia idade pela qual está a passar. Aparentemente com uma vida familiar e profissional estáveis, Askenasi conhece uma mulher por mero acaso com quem se envolve deixando tudo para trás. A frustração e infelicidade sentidas no seu âmago rapidamente dão lugar à mais alucinante sensação de liberdade à medida que se envolve com a bailarina russa.
Mas nem tudo são rosas para Askenasi que sendo um pensador por excelência e claramente influenciado pelos Gregos e por Platão em especial, a busca da Ideia de felicidade atormenta-o procurando respostas na amante e nos outros, embarcando, desta forma, numa aspiral de dilacerante sofrimento que culmina numa verdadeira tragédia grega, cumprindo, neste sentido, o seu próprio destino.

A busca incessante da felicidade é o tema central desta obra e simultaneamente o objetivo da vida de cada um sendo que essa tomada de consciência poderá ser mais ou menos dolorosa consoante as circunstâncias da vida. Esse processo quando tornado excessivamente consciente poderá produzir efeitos contrários aos desejados conduzindo a uma infelicidade imensa.

Notoriamente mais filosófico do que outras obras de Sándor Márai, A Ilha apresenta-se como um dos livros obrigatórios do escritor tornando-se igualmente num dos livros de cabeceira para ler e reler vezes sem conta.

Excertos:

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“Tinha a noção de que nunca, em nenhuma situação, voltaria a sentir esse pudor peculiar, nem vergonha, como agora, cara a cara com a mulher que sabia tudo sobre ele, inclusive que ele estaria disposto a praticar misericórdia e que o faria logo que pudesse. Baixou a cabeça e esfregou o queixo. «As pessoas preferem as coisas simples», pensou novamente com sereno ressentimento. «Por exemplo, aventura. Por exemplo matrimónio.» Parecia-lhe que o matrimónio era algo completamente impúdico. «Com Anna não se podem fazer aquelas coisas – pensou escusando-se, quase assustado -, o matrimónio não foi criado para isso. Só se podem fazer com uma desconhecida. Mas com uma pessoa que sabe tudo sobre nós, não se podem fazer essas coisas, só se podia enquanto ainda era desconhecida…»
Lembrou-se de que amara muito Anna, de tudo o que tinham feito juntos nos primeiros anos de casamento, naquele quarto quando ainda «eram desconhecidos um para o outro» e existia um certo mistério entre eles. Quando desapareceu o mistério começou o pudor.”  (p. 78)

“Já levava três meses que Askenasi vivia com a mulher desconhecida, quando começou a notar com surpresa que a felicidade ou o prazer, ou seja, aquele estado anímico extraordinário que se costuma considerar como a única recompensa pelos sofrimentos terrestres, na realidade era muito pouco parecido com aquilo que havia imaginado. O que estava vivendo era sem dúvida felicidade, mas às vezes parecia-lhe que era um estado incómodo, complexo e, no fim de contas, pouco agradável. Mas o que mais o incomodava era a intensidade de tal sentimento, porque tinha uma componente exagerada, forçada, como se tivesse de andar todo o dia com sobrecasaca e chapéu. Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, com uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora.” (p. 81)

“«Já vivi muitas coisas», refletiu com satisfação. «Quase a vida toda. Na realidade falta pouca coisa…» Recordava-se feliz do trabalho feito, tinha cumprido praticamente todas as suas obrigações, tinha vivido conforme as exigências das circunstâncias e da sociedade, apenas depois tinha seguido uma vida distinta, orientando-se com os instrumentos do corpo, e agora não tinha mais nada para fazer do que procurar a resposta à pergunta. Mas porque é que tinha sofrido sempre de uma forma tão vergonhosa? Qual era o objetivo da ideia relativamente ao ser humano, infligindo-lhe tormentos humilhantes sem fim? Porque é que não conseguia encontrar satisfação? Ainda faltava dar resposta a essa pergunta. Considerou humilhante ter sucumbido de uma forma tão ridícula, e agora tinha que vaguear pelo mundo à procura da resposta noutras mulheres, tentar descobrir respostas parciais nos livros, perguntar a outros homens. «De pouco me serviram os métodos», pensou maldisposto.”  (p. 103)

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Escultura de Sándor Márai em Košice (Eslováquia), cidade natal do escritor

                       

 

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