Correr – Jean Echenoz (Cavalo de Ferro)

Correr

Jean Echenoz através da simplicidade da sua escrita consegue na perfeição e de uma forma muito emotiva prender o leitor desde as primeiras páginas de Correr até ao fim do livro contando de uma forma quase poética o difícil percurso de Emil Zatopek até se tornar conhecido como o homem mais rápido do mundo ou simplesmente “A Locomotiva”.

Jean Echenoz recupera através da literatura uma das maiores referências do atletismo mundial permitindo ao leitor compreender o período complexo por que passava a Europa e o Mundo, desde as vésperas da 2ª Guerra Mundial até depois da «Primavera de Praga».

O socialismo vigente na então Checoslováquia servir-se-á de Emil Zatopek como uma forma de propaganda do regime da mesma forma que oportunamente ditará o fim da sua carreira como atleta de alta competição.

Correr é definitivamente um livro apaixonante e obrigatório para a compreensão da História recente.

“Gosto de correr, ainda quero correr, correr muito, mas não é mau voltar a ser um corredor normal, que pode perder.” (p. 91)

Excertos:

“A primeira corrida na qual Emil participa é portanto uma prova de corta-mato de nove quilómetros, concebida pela Wehrmacht em Brno e que vai opor uma selecção alemã atlética, esbelta, arrogante, impecavelmente equipada, todos parecidos, do género übermensch, a um bando de checos famélicos e andrajosos, jovens camponeses confusos de calções compridos ou vagos futebolistas amadores mal barbeados. Emil não participa de coração alegre nesta prova mas é um rapaz consciente, empenha-se naquilo, dá aquilo que pode. Como termina, quase sem dar por isso e para desfeita dos arianos, em segundo lugar, um treinador do clube local interessa-se por ele. Corres de um modo bizarro mas não corres mal, diz-lhe o treinador. Enfim, na verdade, corres de um modo muito bizarro, insiste ele, abanando uma cabeça incrédula mas, não corres nada mal. Destas duas proposições, Emil não ouve e não entende distraidamente senão a segunda.” (pp. 13-14)

Zatopek

“Para Emil, correr tornou-se um prazer mais propriamente dito, ainda que ele também compreenda que esse prazer tenha de ser aprendido. (…) Arremete todos os dias pela estrada que conduz até à aldeia mais próxima, oito quilómetros, ida e volta, ininterruptamente (…).” (p. 17)

Foto de Emil Zatopek (1922-2000)

“Todos aqueles tipos normais, provenientes da Europa ocidental, estão, em todo o caso, bem vestidos, os seus casacos são formidáveis, e os cinco checos não se sentem à vontade no meio deles. Tão pouco tempo depois da guerra, as privações continuam, os meios faltam e o seu país não pode ou não quer equipá-los convenientemente. Privados dos fatos de treino que são de rigor no desfile dos campeonatos internacionais, eles têm de se apresentar com o equipamento de competição, sentem-se demasiado despidos, aquilo é bastante humilhante. Pela primeira vez na sua vida, portanto, Emil encontra-se na linha de partida de Oslo, com os melhores atletas do mundo, sob os olhos de um público tenso, vindo de toda a parte, com sede de novos recordes.”    (pp. 27-28)

“Talvez ainda não ganhe todas as corridas, mas, à força de acumular recordes, Emil, como quem não quer a coisa, tornou-se num verdadeiro ídolo no seu país.” (p. 31)

“Os atletas entram no estádio [de Berlim] pela porta principal, começam a desfilar em frente das tribunas, sob clamores, todos eles vivamente ovacionados nos seus belos fatos de treino. Mas quando um único indivíduo aparece atrás do cartaz Checoslováquia, sozinho e vestindo apenas um par de calções e uma camisola de fato de treino deslavada, o estádio inteiro desmancha-se a rir. Toda a gente se levanta para ver melhor.” (pp. 36-37)

“(…) Emil (…) escolhe adoptar desde a partida uma rapidez muito grande, precisa de pouco tempo para se desembaraçar dos seus adversários mais possantes. Aliás, a sua velocidade é de tal ordem que ele ganha bem cedo uma volta de avanço aos últimos corredores. Oitenta mil espectadores levantam-se então, gritando, num único movimento, porque Emil lhes oferece um espectáculo que eles nunca tinham visto: tendo já ganho uma volta de avanço a todos os seus adversários, começa agora a ultrapassá-los novamente, um a seguir a outro e, à medida que estes acusam o golpe e abrandam, ele volta a acelerar, cada vez mais. De boca aberta ou aos gritos, tão atónito com a sua prestação quanto como com aquela maneira impossível de correr, o público do estádio já não aguenta mais. (…) Aquilo não é normal (…), não é normal, de modo nenhum. Aquele tipo faz tudo o que não deveria fazer e ganha.” “p. 37)

“Durante a corrida parece-se com um pugilista que combate a sua sombra, todo o seu corpo assemelha-se a um mecanismo avariado, deslocado, doloroso, exceptuando a harmonia das suas pernas, que mordem e mastigam a pista com voracidade. Resumindo, faz tudo de modo diferente dos outros, que por vezes acham que ele faz coisas absurdas.” (p. 38)

“Um dia será calculado que, só a treinar, Emil terá dado três voltas à Terra a correr.” (p. 42)

“O seu estilo não atingiu e talvez nunca atinja a perfeição mas Emil sabe que não tem tempo para se ocupar disso: seriam demasiadas horas perdidas, em detrimento da sua resistência e do acréscimo das suas forças. Portanto, mesmo que o seu estilo não seja grande coisa, ele contenta-se com correr como mais lhe convém e como lhe é menos cansativo, e é tudo.” (p. 43)

“Os jornais apoderam-se alegremente deste debate, achando este assunto uma mina: Emil desafia a corporação médica? Emil resistirá? Não correrá Emil demasiado? Em todo o caso, ele começa a criar um fanatismo em redor da sua pessoa, recebe centenas de cartas em sacos postais cheios, pedidos de autógrafos ou de conselhos, fotografias para escrever dedicatórias, propostas de casamento, e ganhou uma alcunha. A Locomotiva. Tudo corre bem.” (p. 46)

“Os Jogos de Helsínquia começam na terça-feira mas Emil não está em grande forma. (…) Em vez de se contentar com duas provas de fundo, Emil surpreende toda a gente ao decidir, finalmente, inscrever-se nas três: cinco mil metros, dez mil metros e maratona.(…) Por receio de tanta repetição, por cuidado para evitar que nos cansemos, preferimos não descrever a recepção dada às precedentes proezas de Emil em Helsínquia: ovações e vários vivas, transbordares de entusiasmo, explosão do aplaudímetro. Mas ali, após três medalhas de ouro ganhas em dez dias pelo mesmo tipo, ninguém pensa já ter visto aquilo: cem mil espectadores em pé não se espantam somente com aquilo que vêem, eles também se espantam com o barulho que conseguem fazer ao vê-lo.”

(pp. 67-72)

“(…) Desde a sua primeira grande proeza nos Jogos Olímpicos de Londres, com vinte e seis anos, Emil nunca foi igualado, Emil é inigualável. Durante os seis anos, os dois mil dias, que se vão seguir, ele será o homem sobre a Terra que corre mais depressa as longas distâncias. Ao ponto de o seu apelido se tornar aos olhos do mundo a encarnação da potência e da rapidez; este nome alistou-se no pequeno exército dos sinónimos da velocidade.” (pp. 75-76)

“Gosto de correr, ainda quero correr, correr muito, mas não é mau voltar a ser um corredor normal, que pode perder.” (p. 91)

Jean-Echenoz_pics_809                                                   Foto de Jean Echenoz, autor de Correr

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