A Arte de Chorar em Coro – Erling Jepsen

arte de chorar em coro

No final dos anos 60, um menino d11 anos vive numa aldeia do Sul da Jutlândia com os pais e a irmã mais velha. Narra-nos a sua vida, vista pelos seus olhos de criança, e oferece-nos a sua percepção das coisas, impregnada do exagerado simplismo da infância e filtrada pela inocência que não lhe permite compreender o alcance de alguns dos acontecimentos que presencia, os quais, ainda assim, não deixam de nos chegar em toda a sua crueza através das entrelinhas do seu discurso infantil. 

No início, rimo-nos da interpretação que nos oferece de episódios como uma briga entre vizinhos ou as reticências da família em mudarem de canal a meio de um programa na noite em que estreiam a televisão nova. Aquela parece uma família vulgar com um quotidiano igual ao de tantas outras, onde apenas se destaca a grande admiração que o filho nutre pelo pai devido a este “ter as palavras em seu poder”. Na verdade, o pai tem o dom da palavra, que usa especialmente em elogios fúnebres sempre que alguém morre, conseguindo assim conduzir todos os presentes ao choro e, dessa forma, à catarse colectiva. Logo no início do livro, compreendemos que a catarse pelo choro é também utilizada em casa, embora aí não seja despoletada pelas palavras do pai, mas antes por canções que todos cantam em coro. Até aqui, tudo parece normal e até um pouco poético. Mas a parte tranquilizadora da história já se esgotou.

À medida que a narrativa se desenvolve, começamos a aperceber-nos de que aquela família se debate com alguns problemas sérios. A descrição feita pelo narrador nunca perde a sua candura, o que torna os factos relatados ainda mais chocantes. Guiados pelas palavras do filho, que muitas vezes não compreende o que descreve, vamos descobrindo uma realidade dura e implacável e, pior ainda, o isolamento assustador em que vive cada um dos membros da dita família, apesar da aparência de harmonia que transmitem para o exterior. O filho, apesar da sua tenra idade e de não dispor de informação suficiente para descodificar muito do que se passa à sua volta, sente distintamente a solidão de cada uma daquelas vidas, incluindo a da sua, e estabelece para si mesmo uma missão para o bem de todos: fazer com que o pai se sinta melhor, porque, quando o pai está bem, todos eles estão bem. E nem por um momento lhe ocorre duvidar de que terá de o fazer sozinho.

Este é um livro perturbador: gradualmente, vamos interiorizando a enormidade do sofrimento oculto daquelas pessoas, a dimensão da culpa e do desespero em que vivem, mas tal não impede que, de súbito, deixemos escapar um sorriso motivado pela ingenuidade com que o filho aborda questões que o ultrapassam. E de imediato nos autorecriminamos, envergonhados de estarmos a sorrir perante situações de uma tal gravidade. Algumas passagens são um autêntico murro no estômago e obrigam-nos a interromper a leitura para recuperarmos o fôlego, voltando atrás para, quase incrédulos, nos certificarmos de que aquilo que acabámos de ler está mesmo lá escrito e de que não foi a nossa mente retorcida que inventou tal coisa. O autor consegue, assim, transferir a culpa das personagens para o leitor, obrigando-o a sair da sua zona de conforto e a encarar de frente, não só os factos que relata, mas, em especial, o incómodo causado pelos mesmos. Será certamente muito difícil esquecer esta leitura. Como costuma dizer o pai desta família, provavelmente até agora ainda não tínhamos “sentido toda a gravidade da vida”. Mas este livro pôs-nos, certamente, no bom caminho.

Excertos:

“- O teu pai nunca se levanta à noite para chorar?

– Não – responde, olhando-me de modo muito estranho. – Porquê?

– Ele não tem «nervos psíquicos», ou como se chama?

– Acho que não. O teu tem?

– Então nunca se deita no sofá à noite?

– Às vezes dorme no quarto de hóspedes, mas isso é só quando está bêbado.

Quarto de hóspedes: são finos, os da frente.

– E a tua irmã mais velha vai ter com ele?

– A minha irmã mais velha? Não, ela dorme no seu próprio quarto. Que perguntas tão estranhas tu fazes.

Não sei que têm de estranho. Os estranhos são eles, a Mette e a sua família. Tenho percebido que nas classes baixas há, no fundo, muita insensibilidade. (pág. 41).

“Não matarás, diz a Bíblia, ou vais parar ao inferno. Então irei para o inferno, que remédio; sei que está lá o fogo eterno e há todo o tipo de instrumentos de tortura. Claro que me mete medo, mas não que chegue para o evitar. O que me espera aqui e agora é quase pior. Uma almofada na cara, será o melhor; atiro-a ao chão, sento-me em cima dela e depois… Quando estou à porta da casa da Didde, rezo a Deus, ao Tarzan, ao Gabriel e ao Diabo. Depois, toco. E espero. E se a mato com um susto? Pelos vistos, não anda muito bem do coração. Volto a tocar. Ninguém responde. Terei a sorte de ela não estar em casa? Empurro a porta – que está aberta.

 Didde? – chamo desde a sala.

Está deitada no quarto, a dormir. À cabeceira tem: «O Senhor é o meu pastor, nada me faltará». Esta é a minha oportunidade, tenho de aproveitar. Aproximo-me bem dela. Mas se não respira… Já estará morta? Tento tomar-lhe o pulso como o pai costuma fazer. Não noto nada e tem o braço muito frouxo. Está deitada na sua cama, parece que foi uma morte muito tranquila. Caio de joelhos junto à cama e agradeço-lhe; primeiro, oferece-me o comboio eléctrico, e agora morre no preciso instante em que a ia matar.

Vou ter saudades dela.” (pág. 122).

“- Como morreu a avó?

– Já sabes, num incêndio – responde.

– Sim, mas como aconteceu isso?

– Era uma senhora muito velha; talvez estivesse a fumar na cama enquanto fazia a sesta… porquê, que pensas tu que aconteceu?

– E o gato?

– Também morreu.

Envio a hr. Tarriel um pensamento nada amistoso, pois não era necessário que o gato também morresse.

– Eu sei bem quem foi – digo. – Foi hr. Tarriel.

Então, conto-lhe toda a história do meu protector, porque não o consigo evitar, preciso que a mãe o saiba e me perdoe – e, pelos vistos, assim acontece, pois pelo menos não se aborrece. Mas diz que não tem pés nem cabeça.

– Teria acontecido de qualquer modo – diz ela.

– Nós rezámos para que acontecesse – afirmo -, nessa mesma noite, e então aconteceu.

– Porque rezaram para que a avó morresse?

– Para que o pai pudesse dizer um bom discurso fúnebre – respondo. – Não lhe vais contar nada, pois não?

– Não – responde. – Mas porque é tão importante que o pai dê um bom discurso fúnebre?

Parece-me, sinceramente, uma pergunta estúpida, mas não se pode dizer que a mãe seja muito inteligente, por isso faço o que posso para lho explicar com clareza e calma.

– Quando o pai dá um bom discurso fúnebre as pessoas tratam-no bem, e quando as pessoas o tratam bem, ele trata-nos bem; e assim é melhor para todos.

– As pessoas tratam-no bem de qualquer modo – insiste.

– Não me parece – digo. – Além disso, assim viriam mais clientes comprar na loja e teríamos mais dinheiro.

– Meteu-se-te na cabecinha uma coisa que não é verdade – diz -, e à Sanne também. A nossa felicidade e o nosso êxito não dependem da morte de determinadas pessoas em dados momentos.

– Então de que dependem? – pergunto, porque gostaria mesmo de o saber.

– De que cuidemos e gostemos uns dos outros.

– Sim, mas não o fazemos – respondo.

Não deveria ter dito isto, noto-o, porque agora ficou realmente triste.” (págs. 136 e 137).

 

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6 pensamentos sobre “A Arte de Chorar em Coro – Erling Jepsen

  1. adquiri hoje! 😉
    destaco o teu (sónia) “E de imediato nos autorecriminamos, envergonhados de estarmos a sorrir perante situações de uma tal gravidade.” … são estas coisas que tornam os livros marcantes.
    quero ver se ainda o leio este ano.

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