Aberto Toda a Noite – David Trueba

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Desde a primeira linha, apercebemo-nos de que esta não é uma história comum. Relata o dia-a-dia de uma família composta por elementos problemáticos – cada membro da família transporta consigo um conjunto de traços psicológicos fora do normal, que vão da mera excentricidade à verdadeira patologia. Perante este quadro, preparamo-nos para o relato de uma vida familiar infernal – e é aqui que David Trueba nos surpreende. Na verdade, a família Belitre é fora do comum em tudo, até num pormenor hoje em dia cada vez mais raro: não se trata de uma família disfuncional. Muito pelo contrário, é no seu seio que os seus perturbados membros encontram o conforto e o apoio necessário para suportarem as restantes vertentes das suas caóticas vidas. Como reza a citação de Ambrose Bierce que dá início à Terceira Parte do livro, “Lar é o lugar de último recurso – aberto toda a noite.”

Mas Trueba também não limita a sua narrativa à descrição das peripécias tragicómicas dos elementos da família Belitre, nem à constatação de que é o cimento unificador daquela família que impede a desagregação dos seus membros enquanto indivíduos. Enquanto nos deslumbra com as situações ao mesmo tempo banais e delirantes em que os personagens se colocam, fazendo-nos lembrar de que também as nossas vidas têm, com frequência, muito pouco a ver com o conceito habitualmente aceite de normalidade, o narrador aproveita para desenvolver uma filosofia muito particular, apresentando-nos teorias como as vantagens da invisibilidade social como defesa contra a crueldade alheia, a inevitabilidade da corrosão de qualquer estado de felicidade após algum tempo, a idade avançada como estado de suprema sabedoria disfarçada de senilidade (as geniais figuras do avô e da avó são as únicas de entre todos que, a coberto da impunidade fornecida pelo estatuto de idosos, conseguem fazer o que realmente querem e ser, à sua maneira, felizes); e, para coroar esta obra ímpar, David Trueba vai ainda desconstruindo ao longo de todo o livro, pedaço a pedaço, preconceito a preconceito, a noção de amor romântico que começa a ser incutida a qualquer ser humano a partir do momento em que chega a este mundo.

Este é um daqueles livros que, nunca se levando verdadeiramente a sério, fornece abundante matéria para reflexão e não cairá no esquecimento tão depressa.

Excertos:

“Matías ordenara a Gaspar que limpasse todo o pátio com o ancinho depois de almoçarem, mas Gaspar, entre protestos, negava-ser a fazê-lo. Matías, com insistência paterna, falou-lhe com autoridade e chegou a pôr-lhe o ancinho na mão. Quando Gaspar o atirou para longe de si, Matías entrou em casa e foi directamente falar com a mãe. Disse-lhe que Gaspar não respeitava a sua autoridade, perguntou-lhe que género de filhos estavam a educar, pediu-lhe que tentasse ela falar com ele para ver se ganhava juízo. A mãe saiu para o jardim e chamou Gaspar.

Primeiro falou-lhe com ternura, numa tentativa de o fazer compreender a doença do irmão e obedecer: «Nem sequer te está a pedir que faças nada de mal.» Mas Gaspar tinha planos muito diferentes para aquela tarde. Planos com um nome próprio: Sara.

– Tinha pensado ir ver a avó.

– Vais amanhã. Não dês esse desgosto ao teu irmão.

Com raiva contida, Gaspar agarrou no ancinho e começou a juntar as folhas caídas. Matías sentou-se no alpendre. Limpou as lágrimas. Aos poucos, à medida que o cansaço ia consumindo a sua zanga, Gaspar foi compreendendo a doença do irmão Matías e a difícil encruzilhada em que estavam metidos o pai e a mãe. Viu Matías pedinchar com insistência a Nacho que lhe ensinasse uma canção na guitarra, como uma criança.

– Deixa-me em paz, Matías – dizia Nacho. – Não tens ideia nenhuma do que é tocar.

– Então ensina-me.

– Para me arrancares as cordas se alguma coisa te correr mal? Como no outro dia…

Gaspar viu como por fim Nacho cedia e Matías lhe dava um abraço antes de pegar na guitarra. Ninguém queria que voltassem a internar o irmão.

– Muito bem, vamos começar com uma muito fácil. Três acordes…

– O que são acordes?

A guitarra de Nacho, manejada pelas mãos de Matías, começou a emitir terríveis dissonâncias.

– Eu sozinho, eu sozinho – entusiasmava-se Matías.

– Isto já começa a soar bem – mentiu Nacho, e, à distância, trocou uma piscadela de olho cúmplice com Gaspar.” (págs. 101-102).

“O fracasso amoroso no homem provoca estados tragicómicos. Quem evita os remédios clássicos – álcool, drogas, prostituição – mergulha num complicado estado depressivo. A grande crise da vaidade conduz a uma completa baixa de defesas e a uma incontrolável tendência para a depressão. Vi homens passarem semanas sem abandonarem de facto a cama, numa tentativa de dormir para esquecer. Vi homens marcarem todos os números femininos da sua agenda de telefones, procurando foder para esquecer. Vi homens lançarem-se na literatura e na redacção de cartas, como se escrever ajudasse a esquecer. Vi homens gritarem um nome de mulher pela janela de um carro a toda a velocidade, decididos a berrar para esquecer. Tudo isso numa luta sem quartel, e de antemão perdida, para evitar a grande derrota do seu ego. Os homens utilizam as mulheres para se apaixonarem por si mesmos por interposta pessoa.

(…)

Há razões para pensar que essa suposta dignidade amorosa é menor na mulher. Elas estão com frequência mais dispostas a ser insultadas e desprezadas pelo homem que amam. Como por exemplo Aurora. Um homem no seu lugar teria sido considerado um fantoche. Mas ela, pelo contrário, continuava a atender o telefone quando Nacho lhe ligava, abrindo-lhe os braços e as pernas quando ele solicitava e sofrendo sozinha quando ele a evitava. Poucos homens possuem uma dignidade disposta a ser esbofeteada com semelhante regularidade. Para muitos, a desculpa seria a fascinação daquela infeliz mulher pelo seu jovem e atraente amante, de quem tinha o dobro da idade. Talvez tivessem sido assim todas as histórias dolorosas que tivera de suportar ao longo da vida. E Aurora não era de maneira nenhuma uma mulher feia ou desagradável, envelhecida ou incapaz. Simplesmente, perdera a paciência. Essa virtude tão feminina.

Por isso, onde quer que estivesse e o que quer que tivesse planeado, Nacho podia contar com ela. Aurora entregava-se-lhe. Sentia que, ao cravar as unhas nas costas do seu amante, podia também agarrar-se à vida que lhe fugia. Depois de tantos anos perdidos e de tantas desilusões, fora capaz de apaixonar-se outra vez e resistia a perder o alimento da sua paixão. Estava disposta a suportar qualquer castigo para o conservar, inclusive o desprezo.” (págs. 128-129).

“Diante da sepultura de Júlio, Sara disse:

– Em princípio eu devia chorar; mas não me parece.

– Claro que não, deve-se chorar é pelos vivos – proclamou o pai com uma alegria pouco habitual nele. – Olha, nos cemitérios é onde menos mortos há. Em contrapartida, vai a um bar de manhã cedo e verás um montão de mortos.

(…)

– Estou a falar a sério. Penso nisso friamente e garanto-te que estou morto há uns bons vinte anos.

– Para quem está há tanto tempo debaixo da terra, não tens mau aspecto.

O pai insistiu na sua ideia. Sara contestava que havia sempre coisas excitantes para fazer enquanto a vida durava.

– Só tens de procurar um pouco mais além.

– Claro – explicou-se o pai. – Imagina que te tinha conhecido com menos trinta anos. Agora podia apaixonar-me por ti. E desculpa o exemplo. Casar-nos-íamos, teríamos filhos, e trinta anos depois pensaria de novo que a vida é uma merda.” (Pág. 151).

“- Tem cinquenta anos. É demasiado cedo para morrer e demasiado tarde para começar de novo.” (Pág. 197).

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