“Orlando” de Virginia Woolf

orlando

Virginia Woolf foi uma mulher muito à frente do seu tempo, na forma como pensava, como afirmava a sua intelectualidade, como pensava e vivia a questão do género. “Orlando” é uma obra que ilustra todas essas questões. A autora escolhe o género “biográfico” para o subverter. Neste espaço de cenários prismáticos, a biografia vive de ficção e de tempo: a vida de Orlando atravessa quatro séculos. O tempo é um elemento omnipresente e agente transformador.

Orlando nasce homem e nobre, priva com Isabel I, diverte-se na corte do Rei Jaime, torna-se embaixador em Constantinopla e com 36 anos, na alvorada de um sono de vários dias, percebe-se mulher. O apogeu da obra situa-se, no meu modesto entender, neste momento. Virginia Woolf surpreende-nos com a forma fluída com que Orlando acorda feminina e se habitua aos vestidos roçagantes, à suavidade da sua nova pele, à reacção deslumbrada e protectora que causa no sexo masculino. Ao mesmo tempo reflecte, num pragmatismo pueril, sobre o que é ser-se mulher e homem num determinado tempo (questionando se o feminino/masculino é uma qualidade intrínseca), e a prevalência dos condicionamentos que a sociedade impõe.

Apesar de ser tido como um dos livros mais fáceis da escritora, por ter um tom mais directo, confesso que a leitura do mesmo não me foi fácil. A riqueza de imagens que cria é de uma exigência grande e constante e o(a) próprio(a) Orlando vive numa inquietude que não é fácil acompanhar. A mudança de cenários é algo brusca e estranha, o que faz com que nos sintamos frequentemente às apalpadelas numa casa que não conhecemos (este aspecto fez-me reflectir sobre a inconstância de humor de Virginia, como se através da escrita sentíssemos, de maneira sublimada, os seus estados de alma).

É curioso como apesar de ser uma obra bastante descritiva, apela constantemente à nossa participação de leitores. Não é para qualquer estado de alma, mas é uma importante vivência literária.

Detenho-me nesta passagem deliciosa. Reparem como termina. Que mulher provocadora: “(…) Na manhã seguinte, quando pegou na pena e tentou escrever, ou não conseguia pensar em nada, ou o aparo apenas produzia borrão atrás de borrão, ou pior ainda, perdia-se em sombrias meditações sobre a morte precoce e a podridão, o que é muito pior que não pensar em nada. O certo é que – e o seu caso é disso prova- parece que não nos limitamos a escrever com os dedos, mas sim com o corpo todo. O nervo que controla a caneta insinua-se em todas as fibras do nosso ser, aprisiona o coração, perfura o fígado. Muito embora a localização do seu mal parecesse ser na mão esquerda, sentia todo o corpo dominado pelo veneno, acabando por se ver forçada a considerar o mais desesperado dos remédios, ou seja, submeter-se por completo ao espírito da época e arranjar marido.”

Virginia Wolf em “Orlando”, p.137.

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