Um Piano para Cavalos Altos – Sandro William Junqueira (Caminho)

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Trata-se de uma obra bastante criativa com muito sentido de humor ainda que o tema central seja sério centrando-se numa determinada Cidade onde se instalou uma ditadura após o Grande Desastre, um acontecimento apocalíptico, que conduziu à reconstrução da Cidade, assim como à reorganização da sociedade desde a base. O funcionamento da Cidade assenta essencialmente na Fábrica que é a garantia da sustentabilidade económica de parte da Cidade através da produção de empadas e de um outro lado, garante-se o cumprimento da justiça executando sumariamente todos aqueles que não cumprem as leis promulgadas pelo governo.
Tudo correria bem se aquele a quem chamam de Mensageiro, um profeta, não antecipasse acontecimentos graves com contornos trágicos que assolarão a cidade provocando instabilidade ao governo liderado pelo Ministro Calvo…
E se um acontecimento apocalíptico desencadeasse um outro acontecimento apocalíptico?
Todos os personagens têm o seu quê que louco variando entre o estranho e o esquisito, provocando-nos severas gargalhadas porque afinal a realidade também ela é por vezes louca, estranha e esquisita.
Definitivamente uma obra a reter e um escritor a acompanhar!

Excertos:

“A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitetura. É insensato ocupar desnecessariamente metros quadrados públicos com tais pretextos metafísicos. Metros que, usados de forma racional, podem ser rentabilizados noutras matérias. Pois, se existe a fé, e ela se mostra consistente perante a adversidade, então que Deus e o seu séquito ocupem apenas a carne daquele que nele acredita. E não em território da causa pública. A casa de Deus só pode ser a cabeça, o coração, as mãos, os pulmões, os rins, os pénis, ânus e vaginas de quem acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção. É pernicioso e um claro sinal de desobediência, já para não falar numa alta arrogância, fundar alicerces metafísicos fora do único templo sagrado; do único templo que pode ser reconhecido como um espaço de fé, que é a carne de quem reza.
É chegado o tempo, pois, de fazer implodir todos esses tijolos e frontispícios pretenciosamente divinos.” (p. 30)

44 Sandro William Junqueira

“O gesto que mais denuncia a vulnerabilidade e o afeto entre duas pessoas é o beijo ilusionista. Não a fornicação. Por isso, as prostitutas não beijam. Um beijo sincero pode quebrar feitiços, levantar mortos. Por ali convergem a música dos lábios, o desfibrilador das salivas, o tinir das línguas; e a união dá-se; o privado revela-se. Tudo o que escondemos vem-nos à boca.” (p. 92)
“A decisão tem em vista uma nova lei para a redução da quantidade de maldade e preguiça existente no coração daqueles que habitam a Zona Castanha e trabalham na Fábrica.
O Ministro Calvo considera existir uma relação incestuosa entre a preguiça e a maldade. Entre as molas do colchão e a faca do crime.”
(…)
A velocidade da mão é insuficiente para acompanhar a passada do homem que pensa; é insuficiente para agarrar o fumo da imaginação. E os pensamentos azedam, a imaginação evapora-se, se a mão não for suficientemente rápida.” (pp. 153-154)

“Um discurso para o partido: como educar o povo a partir do desastre

(…) Quero começar este discurso por lembrar que desde o momento fatídico da história que obrigou este Governo e o nosso Partido à benévola reconstrução a partir dos pós do desastre, a nossa Cidade foi metodicamente pensada e arquitetada. (…) Limpa e desinfetada. (…) Não só do ponto de vista do equilíbrio urbanístico, dos volumes da arquitetura, mas também em termos da justa organização social, (…) industrial, (…) judicial, (…) militar, (…) comercial, do ócio, e do espectro das cores. (…) É verdade… Eu sei… Educar o povo é processo difícil, demorado. As pessoas são estranhas e destoam. E pretender fazer caminhar toda esta gentalha numa única direção mostra ingenuidade ou utopia. Aprendemos isto com o Grande Desastre. Vocês sabem. (…) Este Governo começou do nada. Mas de um nada organizado e diferente; que parte das vísceras do homem; que compreende e aceita as naturais diferenças: biológicas, orgânicas, celulares. Como tal, as nossas políticas corajosas, excluem, diferenciam. É verdade. Mas não concordam que é estúpido e hipócrita pretender a igualdade?”

(pp. 170-171)

“O motor: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo

O medo é motor indispensável à civilização.
Agente potente que, bem oleado, bem afinado, bem conduzido, permitirá o progresso económico. Não controlado, este movimentador de massas tornar-se-á adversário. Inimigo em vez de amigo. Uma bomba temível que fará a política resvalar para terrenos lodosos e encravar engrenagens. O Governo deve ter isto em atenção. E analisar com argúcia todos os seus componentes e peças: do pequeno receio ao grande terror; da cautela particular ao pânico geral. É necessário examiná-los, testá-los, pô-los em movimento, a todos. Lubrificar o medo. Realizar experiências. Trabalho de oficina. Para do medo retirarmos o máximo lucro. E o rápido avanço. Está mais que provado: o amor é inútil, só atrasa, não dá lucro. E é talvez o maior adversário da boa política.
Assim e, antes de qualquer tomada de decisão, este Governo deverá ter sempre presente, como auxiliar formal e pedagógico às suas ideias e leis, os números, as tabelas, enfim: os consumos do medo.
O que mais teme o povo?
Deverá ser a primeira questão.” (p. 204)

“Uma das mais importantes relações existenciais que estabelecemos na vida é com aquele objeto horizontal: móvel para deitar ou dormir, constituído por um estrado onde se coloca o colchão; revestido por um lençol e cobertores, ou mantas e edredões, consoante a estação.
A cama é esse corpo horizontal, inerte, que recebe peso. E adapta-se. Todos os dias nos recebe de braços abertos e pernas abertas. Sem queixumes em relação a odores, hálitos, humores, roncos, incontinências, tosses, más tensões ou tesões-daninhas. Passivamente, deixa que o peso e outras matérias do corpo se sirvam. Sem nada pedir em troca: o descanso, a cópula, o sonho ou a noite de insónia.
A cama é o amante imperturbável. Aceita cada corpo e passa de corpo em corpo sem tomar partido. E nunca morre para nos ver morrer. Para morrermos nela. Na vida, na morte, ao contrário de no amor, a cama sabe o que faz. O lugar que ocupa na escala da vida e a responsabilidade que daí lhe advém. E cumpre, cumpre. Cumpre, sempre. Acompanha-nos nos momentos pacíficos e eufóricos. Trabalha enquanto o corpo descansa. E repousa, enquanto aquele que se serve dela exerce fora o ofício de viver.
Conhece-nos carne, ossos, respiração. Sabe o ângulo e a posição precisa do antebraço em relação ao tronco. A mão que fica dormente. O ponto cardeal para onde cai a cabeça. Os devaneios do cabelo. O tom em que estalam joelhos. O suor dos pesadelos. O matraquear do coração. Mesmo quando os ocupadores, por inaptidão ou incapacidade, lhe urinam ou libertam odores e outros inconvenientes, a cama recebe-os. Absorve-os com compaixão invulgar, como se estes lhe pertencessem.
A cama é o mais fiel dos amantes. E este compromisso sem aliança eterniza-se até à consumação da morte.” (pp. 207-208)

“Ouvindo as repetidas e consecutivas queixas da Prostituta Anã, o Diretor alertara-a:
Não troques de cama. Esta cama é boa. É uma cama que fala. Vai ajudar-te no negócio.

Assim que o Diretor se deitava, as molas chiavam: guinchos de animal aflito. As molas protestavam do uso contínuo a que eram forçadas. A cama da Prostituta Anã não fora feita apenas para o descanso. Fora feita para trabalhar; para gemer; para ajudar a ganhar dinheiro com gemidos. Apenas com o peso anão, o colchão não reclamava. Mas com o peso de homens em cima do peso anão, acrescentando ao peso da força dos movimentos pélvicos, aí sim, as molas guinchavam tal como a Prostituta Anã; guinchos de molas metálicas e cordas vocais; um concerto de guinchos verdadeiros e guinchos fingidos, para que os homens se sentissem felizes, cumpridores, e pudessem regressar a casa satisfeitos, de mãos nos bolsos, a assobiar para o ar, descontraídos e leves, preparados para regressar outro dia; para pagar mais; para ouvir mais guinchos.” (p. 254)

“Não te faças de parva.
Não, faço de p***.
Tu não mudas.
Sou santa.
Santa e p***?
P*** e santa. P***: porque entrego isto que aqui vês, em troca de um preço, a homens como tu; para que nesta vida existam momentos em que o prazer dure mais que a dor. Santa: porque nesses instantes, tu e outros, através de mim, têm um vislumbre do céu. E enquanto estão aqui a f****-me não estão lá fora a derrubar garrafas e a encher de pancada e nódoas negras as mulheres e os filhos.
Tu não mudas. Fazes-me rir. P*** Santa.
Perdão: rir e vir, senhor. É a vossa desvantagem. Aí não podem mentir.” (pp. 282-283)

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