E Agora, Zé-Ninguém? – Hans Fallada

e agora zé ninguém

Pinneberg (‘Nino) e Emma (Cordeirinha) são jovens, recém-casados e o seu único sonho é construirem uma família como tantas outras, criarem o seu filho e viverem uma vida sem sobressaltos. No entanto, numa situação de crise económica generalizada, Pinneberg não consegue mais do que saltar de emprego precário em emprego precário, sempre perseguido pelo espectro do desemprego e pelos abusos de empregadores que se aproveitam do medo gerado por essa ameaça omnipresente para sobrecarregarem e desrespeitarem os seus empregados. Lutando para se manter à tona, Pinneberg engole o seu orgulho vezes sem conta, mas encontra-se cercado por colegas competitivos, patrões insensíveis, serviços públicos onde as suas reivindicações esbarram como em paredes e até uma mãe que tenta arrancar-lhe parte do seu parco ordenado.

O seu único apoio é Cordeirinha e o amor que nutrem um pelo outro. Quando, após muito lutar para evitar esse desfecho, Pinneberg cai finalmente no desemprego, apercebe-se com espanto de que, ao contrário do que supusera, a vida não acabou aí: é possível continuar a descer sempre mais baixo, degradando-se cada vez mais e perdendo o respeito até dos transeuntes que com ele se cruzam na rua. Mas, quando toda a esperança parece perdida e a vergonha ameaça derrotá-lo, Cordeirinha relembra-lhe a frase que sempre os impediu de desesperar: “Temo-nos um ao outro. E ao Pimpolho.” E a luta pela sobrevivência continua, nem que as contas tenham de ser pagas apenas com recurso a uns biscates que Cordeirinha arranja como costureira, nem que praticamente tudo falte nas suas vidas; e continua porque, mesmo que não possam contar com mais ninguém, podem contar um com o outro. E com o Pimpolho.

Hans Fallada traça aqui um retrato vívido, não só das condições objectivas de vida numa situação de crise económica, mas também da forma como essas condições afectam as atitudes de cada um. E se, na maioria das pessoas, é a parte mais cruel e egoísta que vem ao de cima em momentos de aflição, descobrimos que existem também aqueles em que as dificuldades despertam sentimentos nobres como a compaixão e a entreajuda. As personagens deste livro são profundamente humanas, tanto nas melhores como nas piores vertentes da humanidade, e protagonizam diálogos de um realismo irresistível. Por fim, quando mesmo as amizades mais sólidas falham, a conclusão impõe-se: só a união inabalável entre dois seres que se amam poderá servir de âncora no meio da adversidade.

Excertos:

“Portanto, exteriormente, Pinneberg nada tem que ver com os desempregados, mas interiormente…

Acabou de estar diante de Lehmann, o chefe do pessoal dos Armazéns Mandel, candidatou-se a uma colocação e obteve-a, trata-se de uma transacção comercial perfeitamente simples. Pinneberg, porém, e apesar de desde há pouco ter voltado a fazer parte do grupo daqueles que ganham dinheiro, sente que, de certo modo, em resultado desta transacção, pertence agora, mais do que nunca, ao grupo dos que nada ganham, ao invés de pertencer ao dos que ganham muito. É um deles, pode acontecer qualquer dia, a todo o momento, que ele se veja ali entre eles, e nada pode fazer a esse respeito. Nada o protege de ir ali parar.

Ora, ele é apenas um entre milhões, os ministros discursam para ele, exortam-no a aceitar as privações, a sacrificar-se, a sentir-se alemão, a depositar o seu dinheiro no banco e a votar no partido da situação.

Não acredita em nada do que eles dizem para fazer, se bem que umas vezes o faça, ao passo que outras não, conforme… Não acredita em absolutamente nada. No mais fundo do seu ser, está convencido de que todos eles querem alguma coisa dele, mas ninguém quer nada para ele. Que eu bata a bota na miséria ou não, isso é-lhes indiferente, se eu posso ir ao cinema ou deixo de poder, tanto se lhes dá, se a Cordeirinha consegue agora alimentar-se como deve ser ou se tem demasiadas preocupações, se o Pimpolho irá ser feliz ou um pobre desgraçado… Quem é que quer saber disso?

E quanto a todos aqueles que estão aqui no Kleiner Tiergarten, um verdadeiro jardim zoológico em ponto pequeno, as bestas do proletariado, inofensivas, esfaimadas e conduzidas ao desespero: com todos eles passa-se precisamente o mesmo. Três meses de desemprego e adeusinho ao sobretudo castanho-avermelhado! Adeusinho ao tocar a vida prá frente! Se na quarta-feira à noite Jachmann e Lehmann calharem a desentender-se, eis que para mim, de repente, nada feito. Adeusinho!

Estes aqui são os únicos companheiros, é certo que também não me são favoráveis, chamam-me finório e proletário de colarinho branco, mas isso é coisa provisória. Sei bem que isso de pouco serve. Hoje, mas só hoje, ainda ganho dinheiro, amanhã, bem, amanhã irei pedir o subsídio de desemprego…” (págs. 153 e 154).

“- Ora então, escute lá, Pinneberg – começa Spannfuss, cujo tom se apresenta agora bastante diferente. Nele já nada há daquela grave e paternal apreensão, nada disso, limita-se apenas a ser rudemente directo. – Você voltou hoje uma vez mais a chegar meia hora atrasado. É para mim algo enigmático onde é que imagina conseguir chegar com isto. Quererá porventura dar-nos a entender que, em relação à Casa Mandel, tanto se lhe dá como se lhe deu. Fica a saber, meu jovem, que da nossa parte…!

Descreve um amplo gesto com a mão na direcção da porta. Na verdade, Pinneberg pensara já que tanto fazia, que de qualquer maneira eles iriam mandá-lo embora. De súbito, porém, eis que ainda ali há uma esperança, pelo que, em voz baixa e num tom abatido, diz:

– Peço perdão, senhor Spannfuss, o meu filho ficou doente hoje durante a noite, andei de um lado para o outro e tive de ir chamar uma enfermeira…

Olha para os três, algo desamparado.

– Portanto, foi o seu filho – conclui o senhor Spannfuss. – Desta feita foi o seu filho que ficou doente. Há quatro semanas… ou terá sido já há dez? Fartou-se já de faltar por causa da sua mulher. Daqui a duas semanas irá provavelmente ser a sua avó que vai morrer e daqui a um mês é a sua tia que parte uma perna…

Por momentos, detém-se. E depois, com renovado vigor:

– Você sobrestima o interesse que a empresa tem na sua vida pessoal. A sua vida pessoal não tem para a casa Mandel qualquer interesse. Faça o obséquio de organizar a sua vida de modo a que os seus assuntos possam ser tratados fora das horas de expediente. – Nova pausa. E depois: – O senhor entenda que é a empresa que lhe possibilita ter sequer uma vida pessoal! Em primeiro lugar vem a empresa, em segundo é a empresa e em terceiro é também a empresa, e só depois é que pode fazer como muito bem entender. É graças a nós que o senhor tem sequer uma vida, resolvemos todas as suas preocupações em relação ao seu sustento, consegue entender isso? Afinal de contas, é pontualmente que no último dia do mês vem aqui receber o seu salário, não?

Esboça um sorriso, também os outros senhores sorriem, Pinneberg sabe que seria bom se naquela situação também ele sorrisse um pouco, mas nem com a melhor das vontades ele consegue forçar-se a fazê-lo.” (págs. 347 e 348).

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4 pensamentos sobre “E Agora, Zé-Ninguém? – Hans Fallada

  1. Fico muito contente por teres gostado deste livro. Creio que dificilmente se ficará indiferente a uma história destas sobretudo numa época tão difícil como a que vivemos atualmente que em tantos aspetos é tão semelhante como a dos personagens deste romance de Hans Fallada.

    • É verdade, Jorge, é mesmo muito semelhante. As situações retratadas neste livro são-nos, infelizmente, bastante familiares, talvez porque a natureza humana não muda assim tanto ao longo das décadas e as reacções das pessoas às dificuldades não diferem muito, mesmo com intervalos de 80 e tal anos. Para isso também contribui a escrita magistral de Hans Fallada, que consegue pôr-nos debaixo da pele do protagonista e transmitir-nos o seu medo, a sua revolta e as suas pequenas alegrias como se fossem nossas. Não me canso de dizer que os diálogos são imperdíveis. Obrigada pela sugestão e pelo empréstimo!

    • Obrigada, Márcia! É arrepiante a actualidade deste livro, apesar de se situar nos anos 20/30. Só espero que a continuação da história não se repita também, pois todos sabemos o que sucedeu a seguir na Alemanha… e já tenho ouvido por aí bastantes comentários como “isto só vai lá com uma mudança de regime” e “é preciso é alguém que mande”. Somando 2 + 2, dá para se ficar assustado…

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