O Doutor Glas – Hjalmar Söderberg (Relógio D’Água)

o doutor glas

Hjalmar Söderberg (1869 – 1941) chocou a Suécia com a publicação do romance O Doutor Glas, em 1905, abordando temas que, de um modo geral, nunca tinham sido apresentados de uma forma tão explícita na literatura como se se tratassem dos temas mais corriqueiros do dia-a-dia.

O Doutor Glas chegou aos trinta anos e nunca teve qualquer relacionamento físico com uma mulher, em parte, devido a uma desilusão de amor em virtude de a sua amada ter morrido muito jovem e de forma inesperada. O amor que sentia por essa mulher impediu-o de experimentar novos relacionamentos e de vir a expor a sua nudez perante uma mulher que era algo que ansiava, mas que não conseguia concretizar porque não conseguia entregar-se completamente.

Profundamente citadino, O Doutor Glas era um apaixonado de Estocolmo que descreve não haver outro local na Suécia de então que o estimulasse tanto como a capital onde poderia passear, trabalhar, viver, ter momentos de lazer, nomeadamente a oferta a nível cultural, não esquecendo que era a cidade que mais beneficiava de comodidades a vários níveis.

Não tendo investido na sua carreira para além de médico de clínica geral, O Doutor Glas não deixava de assinar as revistas da especialidade mantendo-se atualizado cientificamente, preparando-se para novos desafios, assim como prestar os cuidados necessários perante os seus pacientes.

Sendo um solitário, O Doutor Glas tinha muito tempo para dedicar à introspeção, o que é visível em toda a obra que é um diário em que são registados não só os principais acontecimentos ao longo de um ano, assim como os seus pensamentos sobre os mais diversos assuntos.

A história começa basicamente quando O Doutor Glas recebe a visita inesperada da esposa do pastor que lhe solicita ajuda em virtude de ter um amante e de não conseguir relacionar-se sexualmente com o marido.

A partir daqui, O Doutor Glas embarca numa viagem alucinante passando a desenvolver afetos, também ele, pela esposa do pastor sem que seja correspondido ao longo do processo.

O Doutor Glas é uma obra que para além de questões relacionadas com adultério, amores não correspondidos, homicídio e emancipação feminina, também levanta questões ético-morais a outros níveis, nomeadamente o aborto e a eutanásia.

O Doutor Glas independentemente de ser a favor do aborto e da eutanásia, optou conscientemente por nunca praticar qualquer um destes atos justificando-se que seria sempre preferível seguir os costumes, obedecendo à lei, ainda que naturalmente, tanto um caso como no outro, invariavelmente viriam a ser legislados por imposição da vontade humana, não havendo necessidade de vir a ser um mártir à conta das suas ideias, cumprindo-se sempre a lei vigente. Sobre estas questões, são várias as páginas em que se assiste a uma constante luta entre o querer e o dever prevalecendo o dever (a lei) por uma questão de consciência.

Esta obra de Hjalmar Söderberg publicada há mais de um século continua a questionar temas da sociedade contemporânea relativamente aos quais ainda não há preparação educacional e cultural em muitos países de modo a poder legislar-se sobre os assuntos em apreço.

Excertos:

Hjalmar Söderberg.Bonnierförlagens arkiv.“- Ganhei uma repulsa terrível pelo meu marido. (…) Não pela pessoa dele. (…) Foi sempre dedicado e bondoso comigo, e nunca me disse uma palavra desagradável. Mas causa-me uma repugnância medonha…
Não sei como exprimir-me. Aquilo que pensava pedir-lhe é muito fora do comum. E talvez não se adeque à sua ideia de justiça. Não sei o que pensa deste género de coisas. Mas há em si qualquer coisa que me inspira confiança, e não conheço ninguém mais que possa ajudar-me e a quem eu possa falar do assunto. O que lhe pergunto é se não poderia falar com o meu marido, doutor. Não poderia dizer-lhe que tenho uma doença, uma infeção no útero, e que ele terá, por isso, de se abster dos seus direitos, pelo menos por algum tempo?


Direitos. Passei a mão pela testa. Fico cego de furor, sempre que ouço a palavra usada nesse sentido. Deus do céu, que terá levado os cérebros humanos a terem a ideia de direitos e deveres a semelhante propósito?”
(pp. 25-26)

“No que eu mais pensava, nessa altura, era na doença. Uma doença prolongada, incurável, repugnante. Eu que vi tanto já… Cancro, lúpus, cegueira, paralisia… São muitos os infelizes que vi aos quais teria administrado, sem o mínimo remorso, uma destas pílulas, não fora em mim, como noutras pessoas decentes, o interesse próprio e o respeito pela lei terem falado mais alto do que a compaixão. E, em contrapartida, não falta também o material humano inútil e desesperadamente estropiado que contribuí para manter exercendo o meu ofício, sem corar sequer de cobrar os meus serviços.
Mas o costume é assim. É sempre prudente seguir o costume, e sobre questões que pessoalmente não nos afetem muito fundo, talvez o melhor seja segui-lo. Porque haveria eu de me tornar mártir em defesa de uma opinião que, mais tarde ou mais cedo, será a de toda a humanidade civilizada, mas que hoje é tida por criminosa?
Terá de chegar, e chegará, o dia em que o direito a morrer seja considerado muito mais importante e inalienável do que o direito a introduzir um boletim numa urna eleitoral. E quando os tempos estiverem maduros para esse dia, todo o doente incurável – e igualmente todo o «criminoso» – terá direito à assistência do médico, caso este aceite a libertação.” (p. 71)

“Queremos ser amados; à falta de amor, queremos ser admirados; à falta de admiração, ser temidos; à falta de sermos temidos, odiados, desprezados. Queremos suscitar nos outros esta ou aquela espécie de sentimento. A alma tem horror ao vazio, e quer a todo o custo manter os seus contactos.” (p. 73)

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