O Jejum e a Festa – Anita Desai

Uma vive com os pais numa aldeia indiana próxima do rio sagrado. Não conseguiu casar, tendo assim defraudado as expectativas da família, e a sua existência é dominada por uma domesticidade que, de tão previsível, acaba por se tornar insuportável. Mas será mais feliz a sua irmã Aruna, Anita Desaicasada, que revela a necessidade obsessiva de provar que leva a vida perfeita? Ou a sua prima Anamika, admirada pela beleza e suavidade de carácter, que casou com um excelente partido e é constantemente maltratada por ele e pela respectiva família, até a situação culminar num desfecho que choca toda a família? Ou o seu irmão Arun, que foi estudar para os EUA e se viu obrigado a aceitar o convite de uns amigos da família para passar o Verão em casa deles, onde, por mais que se esforce por não se intrometer nos assuntos domésticos, não consegue evitar o assombro e o incómodo que os pequenos dramas dos seus hospedeiros lhe causam?

Serão as vidas que correspondem aos parâmetros socialmente tidos como bem-sucedidos mais felizes do que as dos chamados falhados? Será verdade que a sociedade americana, tida como ideal e abundante, proporciona mais felicidade do que a indiana? Ou existirão dramas onde quer que existam pessoas, precisamente porque o drama é inerente ao ser humano?

Excertos:

“Claro que havia ocasiões sociais – a carreira do Pai obrigava a que fossem em grande número – e algumas delas eram presenciadas pelas crianças. Nessas alturas, o Pai cedia ao prazer de beber um pouco de whisky com água. Quando o fazia, entregava-se àquilo que eles consideravam tentativas bastante assustadoras de jocosidade. As suas piadas eram sempre dirigidas contra outras pessoas e sempre bastante ferozes, a coberto da genialidade que parecia apropriada ao ambiente de um jantar ou de uma recepção no clube. Depois de fazer um magistrado recém-formado contorcer-se embaraçado com os seus gracejos, ou recordar a um juiz de longa data um incidente que ele preferia ter esquecido e arrancar-lhe apenas como resposta uma curva amarga dos lábios, desatava a rir em grandes gargalhadas. O sucesso da piada era medido pelo mal-estar que causava aos outros. Era a sua forma de marcar pontos e, ao fazê-lo, atirava a cabeça para trás e ria triunfalmente, dando a sensação de que a sua estatura física (que era quase insignificante) aumentava. Era fácil as outras pessoas deixarem-se enganar e pensarem que o Pai estava bem-disposto. Mas a família não: sabiam que, na verdade, ele estava assustado, abalado pelo que via como um possível desafio ao seu estatuto. Ficavam aliviados quando ele voltava ao seu estado normal – de taciturnidade -, com a sua autoridade incontestada e inabalada.”

“Ao voltar da biblioteca, vê a Srª Patton. Tem de passar por ela, porque está sentada no pátio numa cadeira de lona. Tem os olhos escondidos por detrás de uma óculos enormes. Tem uma roupa tão mínima que lhe cobre apenas alguns centímetros do tronco e das ancas. O resto do corpo está exposto ao olhar de Arun. Parece estar a fritar ao sol, porque espalhou sobre ele uma enorme quantidade de óleo – tem um frasco pousado na relva ao seu lado – que o faz reluzir, castanho e brilhante. Tem os pés esticados à sua frente, com umas sandálias, e com as unhas pintadas de um carmim surpreendente. Inspira e expira profundamente, como se estivesse a dormir.

Podia estar em exposição no Foodmart, uma oferta especial de Verão, a brilhar convidativamente. Consegue-se imaginar por cima dela um letreiro com um desconto.

Arun tem esperança de conseguir passar sem ser ouvido, mas os sapatos fazem crepitar a gravilha, e ela agita-se instantaneamente, levantando a cabeça para olhar para ele. Tira os óculos e acena-lhe com eles de uma forma estranhamente expansiva.

– Ahrun! – grita. – Olá! Estou a bronzear-me.

Ele desejava poder desaparecer. Nem sequer olha na direcção dela. Seria como ver a mãe nua. Quando olha, como não pode deixar de fazer, não consegue deixar de ver os seios moles, que caem para umas bolsas de algodão de xadrez cor de malva, cobertos de sardas e manchas, como cabedal velho. Nem para as dobras e rugas cavadas na pele frouxa da barriga desnudada, cinzentas e moles, como se fossem cortadas em feltro. Porquê, Srª Patton?

– Olá – resmunga ele, apressando o passo.

– Oh, Ahrun, devias experimentar isto. O sol está fantástico! Faz desaparecer todas as preocupações!

Ao irromper na cozinha, com o rosto vermelho pela turbulência dos pensamentos, descobre que também não está vazia. Melanie está sentada à mesa com uma roupa muito parecida com a da mãe, embora esteja muito mais tapada. As pernas despidas estão fechadas sobre as pernas da cadeira, e tem o rosto mergulhado, assim, como algumas madeixas de cabelo, numa taça de gelado, que devora rapidamente às colheradas. Foi o gelado que a mãe comprou. Pára quando Arun entra, com a colher suspensa e uma bola de creme amarelo a escorrer-lhe pelos dedos.

Em vez de, como de costume, desviar a cara com ar de repulsa, dirige-lhe um trejeito estranho.

– Viste a Mãe? – pergunta. Arun não percebe imediatamente: continua a ter dificuldade em acompanhar o discursoi pouco claro de Melanie. Enquanto faz revolutear os sons na sua mente, tentando reconstruí-los sob a forma de palavras, o gelado escorre da colher para cima da toalha. – Está a bronzear-se! – arremessa ela repentinamente, com muita força, com a mesma força que se acumula em Arun e que ele não consegue libertar. Olha fixamente para ela, para ver se os sentimentos dela reflectem realmente os seus, mas não consegue decifrar a sua expressão. Não é certamente a máscara carrancuda que normalmente vê, mas não consegue identificar qual será. Inesperadamente, Melanie esboça um sorriso irónico. – Hoje não vai fazer-te o jantar – diz, vingativamente, voltando logo a seguir para a taça de gelado e atacando-a com redobrada ferocidade.

Arun descobre então uma semelhança com algo que já conhecia: uma semelhança com o rosto conhecido de uma irmã enraivecida que, sem conseguir expressar a sua indignação contra a negligência, a incompreensão, a falta de atenção para com o seu ser único e singular, se limita a cuspir e a espumar protestos ineficazes. Que estranho encontrar isso aqui, pensa Arun, onde tanto é dado, onde existe ao mesmo tempo tanta permissividade e fartura.

Mas o que é a fartura? O que é a ausência de fartura? Como é possível saber a diferença?

Melanie está a comer o gelado avidamente. Afasta os lábios, por forma a conseguir enfiar a colher na boca, atulhada e a pingar-lhe para o queixo, e voltando depois a mergulhá-la uma e outra vez naquela coisa doce, pegajosa e escorregadia, com que sente necessidade de se satisfazer.

Arun sabe que daí a pouco correrá escada acima, onde tudo aquilo jorrará de dentro dela, num acto de rejeição.”

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