Trás-os-Montes – Tiago Patrício (Gradiva)

94 Trás-os-MontesTrás-os-Montes é o romance de estreia de Tiago Patrício que foi galardoado com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2011. O texto alude para uma linguagem infanto-juvenil tendo em conta as idades dos personagens centrais da história dando, por vezes, a ideia de algumas passagens serem puramente naïve, mas que na verdade é propositado porque quando as crianças demonstram a sua capacidade em serem deveras cruéis, ficamos atordoados com a complexidade dos contextos em si que refletem a dureza do meio, da própria sociedade que é produto da natureza dura e crua no seu mais pleno esplendor. Se por um lado a religião poderá constituir o lado redentor entre as pessoas e o meio, também é a própria religião que provoca profundas cisões no modo de pensar e sentir das populações locais, mesmo quando se trata das próprias crianças que chegam a odiar a natureza pedindo igualmente que seria preferível que as tivessem matado em nome de Deus logo após o batismo e, desse modo, morreriam puras perante o Senhor.

Excertos da obra:

“Edgar nunca contava, mas Oscar e Teodoro sabiam que ele levava tanta porrada do pai, que chegava a ficar de cama. O pai costumava marcar o dia, às vezes com uma semana de antecedência, normalmente às quintas ou sextas feiras depois da escola, para lhe dar tempo de recuperar até à segunda feira seguinte. A mãe de Edgar também lhe batia, mas sempre na rua à frente de toda a gente, quando se cruzava com ele e o corria a pontapé até casa. Depois de a mãe de Edgar fugir com outro homem, o pai pôde concentrar-se melhor no filho. Mostrava-lhe como tinha sempre razão e batia-lhe especialmente quando não tinha motivos, «é especialmente nessas alturas que se devem dar os maiores açoites, é isso a educação. Quando se bate para reagir a uma desobediência, isso demonstra falta de autoridade e eu quero que o meu filho seja bem educado.»” (p. 37)

“O dia da Primeira Comunhão chegou na mesma altura para Edgar e Teodoro, apesar dos dois anos de atraso em relação a Oscar, devido a uma certa falta de ordem interior.
Só depois desse dia é que passaram a poder comungar, «agora já têm Deus na vossa barriguinha», disse-lhes a professora à saída da igreja. Mas eles aguentavam poucos dias livres de pecado. Edgar dizia que só quem vivesse sozinho e não falasse com mais ninguém poderia manter a virtude e a possibilidade de comungar durante mais de uma semana.
(…) Quando Teodoro saía da igreja, costumava dizer, «sinto-me tão puro que nunca mais volto a pecar por iniciativa» e resistia até onde podia. Mas Edgar, com aquela leveza recém-adquirida, dava pulos e corria atrás das raparigas a bater as palmas como se fosse levantar-lhes a saia e depois respondia, «pecado é roubar ou mentir com as calças na mão», ou então, quando já nem queria dar-se ao trabalho de se justificar, dizia de repente, «tenho de pecar, tenho de pecar, senão rebento!»
(pp. 75-76)

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“Por vezes as catequistas respondiam às perguntas inconvenientes de Teodoro, «o que são os anjos, os pastorinhos, o sagrado coração, o que é a pureza de Nossa Senhora?», mas Teodoro não ficava satisfeito. Ele queria entender claramente qual o caminho que deveria seguir para chegar ao céu, mas nada lhe parecia concreto e imediato, «mas se a vida eterna é a verdadeira, porque é que andamos aqui a perder tempo? Quanto mais tempo andar cá em baixo mais aumento os meus pecados, daqui a uns anos já não vou conseguir passar pelas portas do céu. Devo ganhar muito dinheiro ou ser pobre, devo estudar muito e saber muitas coisas ou ser humilde e fechar-me em casa?»” (p. 106)

“(…) Só quando estava a sós com a mãe (…) é que lhe disse, «porque é que não me mataste quando ainda era pequeno, logo a seguir ao batizado, depois de limpo do pecado original? Porque é que não me deixaste afogar no banho ou me deixaste cair pelas escadas abaixo, porquê? Se a salvação estava ali tão perto, a entrada no céu, para o grupo dos anjos. Tinhas medo da tua perdição, do teu pecado? Olha agora para ti e para mim, perdidos para nada e sem remédio».” (pp. 151-152)

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