Mudanças – Mo Yan (Divina Comédia) – Prémio Nobel de Literatura 2012

82. Mudanças

O chinês Mo Yan foi galardoado com o Nobel de Literatura 2012 havendo já dois títulos publicados em língua portuguesa. Mudanças (Divina Comédia) conta-nos de uma forma extremamente simples, humana e com algum humor à mistura a vida do próprio escritor em articulação com a história da China ao longo das últimas décadas. Uma notável descoberta e um livro pelo qual nos apaixonamos!

Excertos:

“Mas regressemos àquela tarde em que eu estava encostado ao muro do recreio a assistir a uma partida de pingue-pongue entre o Bocarra Liu e a Lu Wenli. O Liu era um jogador medíocre que era obcecado por desporto e que adorava jogar contra as raparigas da equipa. Embora não pudéssemos dizer que qualquer uma delas fosse feia, a Lu Wenli era a mais bonita e, logo, a sua adversária preferida. Sempre que acertava na bola, ele abria inadvertidamente a sua boca hiante. Por si só, tal facto não seria digno de nota, mas desprendia-se um som gutural gaji gaji, como se houvesse ali sapos a tentar sair. Para os olhos e para os ouvidos, o seu estilo de jogo quase dava vómitos. A Lu Wenli detestava jogar com o Professor Liu, como eu bem sabia, só que ele era um dos administradores da escola, pelo que não lhe restava alternativa. O olhar que se estampava no rosto dela e a sua forma desleixada de jogar sempre que se achava do outro lado da mesa com o Professor Liu denunciavam tudo o que precisávamos de saber sobre o que ela estava a sentir: repugnância e aversão.
Enfim, todo este palavreado tinha por objetivo montar a seguinte cena dramática: de boca aberta, o Professor Liu bateu uma bola alta com efeito que a Lu Wenli devolveu com indiferença. Porém, como se dotada de olhos, a reluzente bola de pingue-pongue foi direitinha a voar para dentro da boca dele.
(…) O Professor Wang, um dos direitistas e licenciado em medicina, sabia o que havia a fazer. Foi a correr (…) pôs os braços – tinha braços compridos de macaco – à volta da cintura do Professor Liu e aplicou pressão com as mãos na região média. A bola saiu a voar da boca do Professor Liu e aterrou na mesa, onde saltitou uma ou duas vezes antes de cair ao chão e parar, sem rolar um centímetro sequer.” (pp. 37-38, 40-41)

“Naquela época, o acesso à faculdade baseava-se não em exames mas em recomendações feitas por camponeses pobres e da classe média-baixa. Embora eu reunisse todos os requisitos para entrar na faculdade, para ser realista tinha apenas duas hipóteses: ínfima ou nenhuma. Uma vez que não havia sequer vagas suficientes para os filhos e filhas dos altos quadros comunais, era impossível que algum aluno do quinto ano como eu, um filho feio e bocarrudo de um camponês médio, fosse escolhido. Após ponderar a questão de todos os ângulos, ir para o exército pareceu-me a única forma de sair da aldeia e mudar a minha vida.”  (pp. 44-45)

“O polícia ralhou com o Zhang por este ir em excesso de velocidade, ao que Zhang se desfez em desculpas, dizendo que era a primeira vez que estava em Pequim e que as leis de trânsito eram para ele uma novidade. Pequim! Meu Deus, estávamos em Pequim! Quem diria que, a dezoito de janeiro de 1978, um jovem pobre do Município do Nordeste de Gaomi daria por si em Pequim, a partilhar a estrada com berlinas pretas e brancas e jipes verdes? A toda a volta havia prédios altos, edifícios descomunais e estrangeiros de nariz saliente e olhos azuis. Naquela época, a cidade não tinha um décimo do tamanho da atual Pequim, mas, aos meus olhos, era gigantesca e terrivelmente assustadora.” (pp. 66-67)

67. Mo Yan

“- De que é que serve esta conversa? – disse o meu pai. – Vês bem como as coisas estão por cá. Volta para lá e dá o teu melhor. Não tenhas medo de te pores à disposição. As pessoas morrem de doenças e não do trabalho árduo. Insiste e, mais tarde ou mais cedo, os teus superiores hão de reparar. Se não conseguires uma promoção e eles não te deixarem aprender a conduzir, arranja maneira de entrares para o Partido. Fui toda a minha vida um comunista leal, mas nunca me concederam entrada no Partido. Não tenho futuro, ao contrário de ti. Arranja maneira de entrar para o Partido enquanto ainda estás no exército. Poderás então regressar a casa com um pouco de dignidade.” (pp. 81-82)

“A ordem a nomear-me oficial de instrução ainda deve estar no meu processo. Lembro-me de que foi o meu pai quem trouxe para casa a carta. Quando lhe disse o que lá vinha, o brilho que se acendeu nos seus olhos transmitiu-me uma sensação de afeto, não sem uma ponta de austeridade. Sem dizer uma palavra, ele pegou na sua enxada e pôs-se a caminho dos campos. A sua reação fez-me pensar na forma como um parente afastado e idoso de uma aldeia vizinha reagira à notícia de que o seu filho fora promovido: passeara pela aldeia a bater um gongo e a gritar, «O meu filho é oficial! O meu filho é oficial!» A abordagem sóbria do meu pai ao mesmo assunto ensinou-me muita coisa acerca da sua personalidade, do seu caráter, das suas experiências de vida.” (pp. 103-104)

“Uma vez que não havia nenhum dormitório disponível, eu tinha de pernoitar num depósito de sucata onde hordas de ratazanas me acordaram todas as noites. Uma delas fez o ninho na minha mala e teve uma ninhada de crias. Nos anos seguintes, as minhas roupas e os meus lençóis ficaram a cheirar a urina de ratazana. Dispus na soleira da porta e junto à cama diversas estátuas do Presidente Mao que estavam lá guardadas, para me servirem de sentinelas. Alguns dos meus amigos escritores vieram visitar-me, após passarem pelos guardas do portão. Ao verem o que eu fizera, aplicaram-me o epíteto de génio criativo número um da China por ter feito do Presidente Mao minha sentinela e guarda-costas. Foi essa a minha casa durante dois anos, até a unidade me ter atribuído um apartamento de duas assoalhadas. No entanto, mesmo após a mudança, senti saudades desses dias que passara com o Presidente Mao.” (pp. 111-112)

“O meu casamento deu azo a falatório na região da bandeira. Pensemos bem: o homem mais rico de toda a bandeira, He Zhiwu, escolheu uma mulher bexigosa para sua esposa. As pessoas não compreendiam, como é óbvio, não conseguiam. Mas tu compreenderás assim que puseres os olhos nas tuas sobrinhas lindas de morrer e no teu sobrinho que é um craque da bola. As únicas máculas na cara bem delineada da minha mulher são as bexigas, que não podem passar de geração em geração. Já os genes e a figura perfeita de russa branca podem, e passaram. Não apenas isso: se eu tivesse casado com uma mulher Han, só poderíamos ter tido um filho. No entanto, ao casar com uma russa branca, a lei permitia dois, e não foi preciso muito tempo para o limite esticar até aos três.”

(pp. 134-135)

 

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