Acerca de livros e de uma “História de Amor e Trevas” de Amos Oz

9789724150017Os livros são como as pessoas: conhecemos inúmeros ao longo da nossa vida, uns deslizam rápida e indiferentemente para os confins da memória sem deixar qualquer impressão consciente duradoura enquanto que outros incomodam-nos, perturbam-nos e roubam a nossa tranquilidade desenhando um certo rasto amargo que, em regra, procuramos esquecer através da imersão noutro livro. E depois há aqueles que nos deslumbram, nos arrebatam num belo turbilhão mágico e nos fazem quase levitar na delicada elegância das suas palavras. Quando abrimos um livro assim estamos, ainda sem o saber, a iniciar um percurso ao mundo fabuloso da arte de escrever, riscando uma marca indelével no nosso âmago, um encantamento sob o qual passamos a viver. Ao atingir este ponto, todas as palavras nos parecem inadequadas e insuficientes para o descrever. Há umas semanas atrás encontrei, por puro acaso (ou talvez não…), um livros destes. Estava numa estante da Biblioteca itinerante e o seu título espicaçou a minha curiosidade: “Uma história de amor e trevas”. O nome do autor, Amos Oz, soava vagamente familiar, já tinha ouvido falar dele algures mas não conhecia a sua obra. Peguei no livro e trouxe-o para casa. O que se passou a seguir foi o deslumbramento que tentei descrever acima com as minhas palavras mais que imperfeitas.

“Uma história de amor e trevas” é simultaneamente uma autobiografia e um relato histórico mas pessoal do nascimento do Estado de Israel. Amos Oz conta-nos a história da sua família e a sua própria história cujas alegrias e dores se entrecruzam com aquelas do conturbado processo da criação deste país. Por vezes hilariante, outras profundamente triste e sofrida, mas nunca indiferente ou desinteressante, a escrita sublime de Oz guia o leitor numa viagem emocionante e inesquecível. Ler este livro foi, para mim, percorrer um caminho em direcção a um lago de águas profundas e silenciosas onde, paradoxalmente, não fazem falta as palavras. Termino citando uma das minhas passagens preferidas desta obra:

“Em contrapartida, livros era coisa que não nos faltava, ocupavam as paredes todas, no corredor, na cozinha, na entrada, e até nos vãos das janelas e sei lá onde. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Dir-se-ia que os homens iam e vinham, nasciam e morriam, mas que os livros eram eternos. Quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver.”

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